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Abdullah e Ghani se declaram presidentes no Afeganistão

Oponentes fizeram cerimônias simultâneas; cenário cria dilema para os EUA e traz problemas para acordo de paz com o Taleban

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 21h42

O presidente em exercício do Afeganistão e seu principal desafiador político assumiram o cargo de presidente em cerimônias separadas nesta segunda-feira, 9, transformando em caos os planos de negociações com o Taleban e criando um dilema para os Estados Unidos. 

O acordo de paz entre EUA e Taleban, assinado há pouco mais de uma semana, foi apresentado como um esforço de Washington para acabar com 18 anos de guerra no Afeganistão e visto por muitos afegãos como a melhor oportunidade para pôr fim a combates implacáveis.

Mas a disputa acirrada entre o presidente Ashraf Ghani, que foi declarado vencedor das eleições de setembro do ano passado, e seu rival Abdullah Abdullah, que acusou fraude na votação, ameaça destruir os próximos passos e até gerar mais violência.

Os rivais realizaram cerimônias de posse simultâneas, cada uma cheia de seus apoiadores - Ghani no palácio presidencial e Abdullah ao lado de Sapedar.

Enquanto Ghani terminava seu discurso de agradecimento, ouviram-se rajadas de foguetes perto do palácio presidencial. “Vimos ataques maiores. Não tenha medo de apenas duas explosões”, disse Ghani, levantando as mãos e pedindo calma aos participantes. Os autores do ataque não foram imediatamente identificados.

Em um sinal de apoio internacional a Ghani, sua cerimônia - exibida na TV estatal - contou com a presença do enviado de paz de Washington, Zalmay Khalilzad, e o general Austin S. Miller, chefe das forças americanas no Afeganistão, além de vários dignitários estrangeiros, incluindo o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA e Tadamichi Yamamoto, representante pessoal do Secretário-Geral da ONU no Afeganistão.

Na inauguração de Abdullah, exibida na TV privada Tolo, estavam presentes os chamados ‘comandantes da jihadi’, que participaram da brutal guerra civil dos anos 90 e se aliaram à coalizão liderada pelos EUA para derrubar o Taleban em 2001.

Ambos os candidatos - mas particularmente Abdullah - são apoiados por ‘senhores da guerra’ com milícias fortemente armadas.

No acordo entre Washington e os insurgentes do Taleban, o próximo passo crucial seria a negociação intra-afegã, na qual todas as facções, incluindo o Taleban, debateriam o futuro do país. 

Essas negociações aconteceriam na terça-feira, 10, em Oslo, mas o caos político em Cabul torna isso quase impossível. Ghani disse que anunciará sua equipe na terça-feira, mas parece que Abdullah também pode anunciar sua equipe de negociação.

Nas cerimônias simultâneas, os dois falaram sobre o plano de paz. Abdullah disse que não tinha condições prévias para negociações e prometeu que sua equipe seria inclusiva, mas não deu mais detalhes. Ghani disse acreditar que outra promessa de redução da violência viria do Taleban em troca da libertação de seus prisioneiros. 

O porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahed, disse no final do domingo que o Taleban ainda estava comprometido com o acordo, mas que as cerimônias simultâneas "não são boas para a nação afegã". /AP

 

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