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Abdullah qualifica de 'farsa' a apuração afegã

Rival do presidente Karzai, ex-chanceler denuncia 'fraude maciça' na eleição presidencial no país

Efe,

25 de agosto de 2009 | 14h42

Horas antes do anúncio dos primeiros resultados das eleições afegãs, o candidato Abdullah Abdullah denunciou em entrevista à Efe uma "fraude maciça" a favor do atual presidente, Hamid Karzai, e qualificou de "farsa" a apuração dos votos. "Devemos evitar e deter as irregularidades", afirmou o principal rival de Karzai, que disse confiar em que não haverá uma explosão de violência se os resultados não são críveis.

 

Em sua residência em Cabul, sentado em uma pequena poltrona e rodeado de retratos de um sorridente Ahmed Xá Massoud, o líder da resistência antitaleban assassinado na véspera do 11 de setembro, Abdullah mostrou um feixe de cédulas. Todas elas estão marcadas com a mesma caneta na casinha do atual presidente, que segundo as enquetes partia com uma ampla vantagem no pleito.

 

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"Estas cédulas nem sequer chegaram a ser usadas. Foram trazidas por um trabalhador da Comissão esta manhã e é só um exemplo. Mas há centenas de livros de votos como este que sim entraram nas urnas", afirmou o tajique Abdullah, membro da segunda etnia afegã mais numerosa.

 

Segundo o organismo encarregado de julgar as irregularidades, a Comissão de Queixas (ECC), até o momento existem 225 denúncias de fraude nas eleições presidenciais, sendo que 35 delas podem resultar na alteração dos resultados. Abdullah deu credibilidade ao organismo, mas duvidou que disponha de capacidade suficiente para "limpar de fraudes" o pleito, o segundo presidencial após a queda dos taleban.

 

Já antes da jornada eleitoral, dia 20 de agosto, um de seus porta-vozes tinha alertado que um processo eleitoral infestado de irregularidades poderia levar a uma onda de violência entre os partidários dos principais candidatos. "Espero que não se chegue a isso - declarou Abdullah - mas certamente o resultado das eleições deve ser decidido pelo voto do povo, não por uma fraude. Se o resultado das eleições é fraudulento, não será aceitável para os afegãos".

 

Perante a possibilidade de violência, temida pelo Ocidente pela instabilidade que sofre já o país, o enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão, Richard Holbrooke, revelou outro dia que tanto Karzai como Abdullah lhe prometeram respeitar os resultados oficiais. Mas Abdullah, que fez parte do governo Karzai até se opor ao atual líder, disse que sua promessa se referia só a um "processo crível e transparente" e que não aceitará pressões se persistem as provas de manipulação.

 

Com 10% dos votos apurados, Hamid Karzai está na liderança com uma pequena diferença. O atual presidente tem 212.927 dos 555.842 votos apurados, com Abdullah Abdullah logo atrás, com 202.889. Segundo Abdullah, as eleições tiveram baixa participação devido ao boicote dos insurgentes taleban, que "pressionaram a população a não votar", lembrou Abdullah.

 

Os taleban também empreenderam uma onda de violência que dificultou as eleições, principalmente no sul do país. "Preste atenção - acrescentou o candidato em referência às supostas fraudes - em alguns pontos do Afeganistão as pessoas que queriam votar não puderam fazê-lo e também não puderam chegar ali os observadores internacionais. Mas mesmo assim as urnas estão cheias". "Não teria problema se Karzai conseguir 80 ou 99% dos votos, se esses votos fossem realmente para ele. Não estou falando de pequenas coisas aqui e ali. Eles encheram urnas, encheram números. Não esperávamos esta farsa", denunciou Abdullah.

 

Até agora, os observadores internacionais qualificaram o processo como "justo" mas não "livre", devido à presença dos taleban, mas a Fundação afegã para umas Eleições Livres e Justas (FEFA) denunciou numerosas irregularidades."A campanha eleitoral também não foi tão justa como se diz; Karzai teve todas as vantagens. Olhe, eu não tenho lugar junto a alguém que rouba o voto do povo", descartou Abdullah, perguntado sobre a possibilidade de um Governo de unidade após o pleito. Apostou também por investigar as denúncias realizadas contra ele por outros candidatos, que acusaram a membros de sua equipe de campanha de irregularidades.

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