Noriko Hayashi/NYT
Noriko Hayashi/NYT

Abe prometeu que o Japão ajudaria as mulheres a 'brilharem' – elas ainda esperam

Apesar dos avanços, ex-premiê não conseguiu cumprir metas de diversificação do mercado de trabalho

Motoko Rich e Hisako Ueno, The New York Times

17 de setembro de 2020 | 04h00

TÓQUIO – Aparentemente, esta seria uma era em que o Japão finalmente avançaria, deixando para trás séculos de domínio patriarcal, com as mulheres assumindo mais poder no ambiente de trabalho. Segundo o primeiro ministro Shinzo Abe, a prosperidade do país dependia disto e ele prometeu implementar políticas que ajudariam as mulheres a “brilhar”. Abe até criou um nome para isto: “womenomics”.

Sayaka Hojo ainda espera para ver os resultados de tais promessas.

Hojo, de 23 anos, que tem uma filha, teve três empregadores diferentes durante os quase oito anos de mandato de Shinzo Abe, que no mês passado anunciou sua demissão. Em todos esses empregos ela trabalhou na maior parte do tempo com mulheres, mas sob a direção de homens – uma situação ainda comum no Japão que contradiz a promessa de Abe.

E Hojo, como muitas mulheres japonesas, não pode aceitar um emprego em tempo integral mesmo depois de Abe ter sancionado lei com a finalidade de abrandar a brutal cultura de trabalho do Japão. Como ela arca com a totalidade do trabalho doméstico e os cuidados com a filha, as horas no emprego seriam muito árduas.

“Se há mulheres talentosas, competentes, quando se casam ou têm filhos, sua carreira é interrompida”, disse Hojo. Quanto à retórica grandiloquente de Abe sobre uma ascensão das mulheres, ela disse: “Vejo uma enorme diferença entre o que ele prometeu e o que de fato vem ocorrendo”.

Com Abe deixando o cargo que ocupou durante anos, um dos pontos da sua lista de aspirações não satisfeitas foi a meta de promover as mulheres no ambiente de trabalho com o fim de solucionar problemas demográficos urgentes. Yoshihide Suga, que foi chefe de gabinete de Abe e tomou posse na segunda-feira como seu substituto, não deverá mudar drasticamente esse ambiente desfavorável para as mulheres.

Elas detêm menos de 12% dos cargos de direção em empresas, bem abaixo da meta de 30% ambicionada por Abe. E embora a porcentagem de mulheres trabalhando tenha aumentado durante seu primeiro mandato, para 52,2%, mais da metade delas trabalha em tempo parcial ou com contratos que oferecem poucos benefícios ou possibilidades de avanço na carreira. E as mulheres também são as que mais têm sofrido durante a pandemia, com a perda de salário e horas de trabalho.

Embora muitas voltem a trabalhar, com frequência assumem os chamados “bicos” para conseguir algum dinheiro extra para as despesas de casa”, disse Nobuko Kobayashi, da empresa de consultoria EY Japan. “Portanto, devemos chamar isto realmente de 'womenomics' no sentido de reforçar a posição das mulheres na sociedade? Não”, afirmou.

Abe mudou o tom em relação a dirigentes anteriores que consideravam que o lugar certo da mulher é em casa. E pelo menos numa área as mulheres avançaram muito: em 2020, mais de um terço das contratações para cargos de administração nos ministérios do governo central foram de mulheres, em comparação com menos de um quarto em 2012.

Mas muitas mulheres ainda têm dificuldade para conseguir uma creche para os filhos que seja adequada, mesmo depois de Abe prometer eliminar as listas de espera nas creches públicas em 2020. Desde o início deste ano, 2.500 crianças aguardavam uma vaga, mesmo que o número de recém-nascidos no país tenha caído ao seu menor patamar em quase um século e meio.

Para muitas mulheres, Abe mostrou suas reais intenções de duas formas: sua constante objeção à mudança de uma lei do século 19 ordenando que casais legalmente unidos usem um único sobrenome, e sua ênfase na “importância da sucessão masculina”, uma vez que a maioria da população do país defende que uma mulher possa se tornar imperatriz do Japão.

“Mesmo que soubéssemos que ele era um conservador, ele fingia apoiar a participação ativa das mulheres na sociedade”, disse Tomomi Yamaguchi, professora de antropologia e sociologia na Montana State University.

Esse avanço claudicante das mulheres na sociedade em parte é produto da sua sub-representação arraigada na política.

Os três candidatos a substituir Abe como primeiro ministro eram homens. Duas deputadas se mostraram interessadas no início, mas rapidamente desistiram por falta de apoio.

As mulheres representam menos de 15% dos membros do parlamento do país. Das 102 parlamentares, menos da metade pertence ao Partido Liberal Democrata de Abe, um partido conservador. Dos 20 membros do seu gabinete, somente três eram mulheres.

“A principal razão desse número tão baixo de mulheres na política é o fato de o partido não recrutar nem nomear mulheres”, disse Gill Steel, professora de ciências políticas na Doshisha University, em Tóquio, e editora de Beyond the Gender Gap in Japan. “Abe foi primeiro ministro e nada fez para mudar isto”, disse ela.

Um grupo de dez mulheres membros do Partido Liberal Democrata enviou uma carta aos três candidatos exortando-os a apoiarem um limite mínimo de 30% na representação feminina no parlamento nacional.

Yayoi Kimura, membro do partido na Câmara dos Deputados, que também assinou a carta, disse que quando apresentou, com colegas, um projeto de lei instituindo uma isenção fiscal para mães solteiras, alguns dos seus colegas parlamentares afirmaram que a maioria das mães solteiras era amante de homens ricos ou então mulheres de carreira muito ambiciosas que não necessitavam de ajuda do governo. A medida foi aprovada, disse Kimura, porque as mulheres de todos os partidos se uniram em defesa da lei.

Hojo, que é contadora, conta que imaginava um futuro que iria além da maternidade. “Ainda tenho esse sonho”, disse.

Quando retornou ao emprego depois de ficar em casa cuidando da filha recém-nascida por dois anos, ela ocupou uma função em tempo parcial na clínica médica onde trabalhava antes em tempo integral. Como seu marido é motorista de um serviço de entregas e trabalha às vezes 100 horas na semana, ela aceitou reduzir seu horário porque, caso contrário, teria de permanecer na clínica até as 20h, muito tarde para pegar a filha na creche.

Usando uma expressão idiomática – nagai mono ni makareru – a tendência das pessoas a seguir o que prega a autoridade –, ela disse: “Se o governo, que está na posição mais forte, 'demonstrar' a importância de se dar mais oportunidades às mulheres no campo do trabalho, 'as empresas privadas' seguirão o exemplo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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