Abin teme vazamento de lista de infiltrados

Informante pode ter repassado aos EUA relação dos colaboradores da agência de inteligência dentro da comunidade árabe da Tríplice Fronteira

TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h04

Integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) temem que o espião americano que manteve contatos com o agente brasileiro 008997 possa ter obtido dele uma lista com informantes infiltrados na importante comunidade árabe da Tríplice Fronteira.

A região de Foz do Iguaçu é considerada pelos EUA um centro financeiro por onde fluem recursos para grupos terroristas do Oriente Médio. O acervo de informantes é um "patrimônio" do serviço secreto. Muitos são remunerados pela Abin e têm as identidades mantidas em segredo, até mesmo de aliados.

Procurada na manhã de sexta-feira, a Embaixada dos EUA no Brasil se limitou a informar que o funcionário identificado pela Abin em encontros com o araponga brasileiro realmente trabalhou em Brasília, mas já retornou aos EUA.

O nome do agente é preservado pela reportagem por recomendação de analistas da Abin consultados pelo Estado, em razão da Lei de Proteção de Identidade de Inteligência, de 1982. Embora não alcance outros territórios, como o Brasil, a legislação americana pode ser usada para atingir os envolvidos em outras circunstâncias.

No Ministério das Relações Exteriores, o registro é que o americano ficou no Brasil de 29 de setembro de 2010 a 12 de agosto de 2012, lotado na embaixada em Brasília. Ou seja, ele saiu do Brasil menos de uma semana depois do encontro com o ex-servidor da Abin. Procurada, a Abin afirmou em nota que "não se manifesta publicamente sobre o exercício das atividades de inteligência". Apesar de inúmeras tentativas, o Estado não conseguiu localizar o agente aposentado 008997.

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a quem a Abin é subordinada, não quis se pronunciar, alegando que a resposta já havia sido dada pela agência. Não houve explicação, no entanto, sobre o motivo pelo qual o ministro-chefe do GSI, general José Elito, assinou a exoneração do agente 008997 da Superintendência de Manaus, primeiro passo para a aposentadoria dele, sem que tenha sido aberta uma sindicância ou um processo administrativo contra o servidor. Elito teria sido informado pelo diretor da Abin, Wilson Trezza, do verdadeiro motivo da exoneração.

A atitude da direção da Abin de ignorar a suspeita de espionagem revoltou setores da contrainteligência do órgão, que havia desbaratado toda a operação, já que o trabalho levou à aposentadoria compulsória do agente brasileiro e a transferência imediata do americano.

O fato de as autoridades encarregadas de detectar ações de espionagem no País terem omitido da presidente Dilma Rousseff o "grave episódio" foi considerado sério, segundo uma das fontes ouvidas pelo Estado.

Nas discussões na direção da Abin, prevaleceu a tese de que, como o Brasil não tem legislação tipificando crime de espionagem e a inteligência não produz provas, seria difícil enquadrar os envolvidos, apesar de a própria contrainteligência da Abin ter gravações em vídeo do jantar e fotos da conversa entre os dois, ocorrida em agosto de 2012, em Curitiba.

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