Abismo político em Washington se aprofunda

Discurso de Obama sobre o Estado da União faz Republicanos e Democratas cerrarem fileiras

PETER BAKER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2015 | 03h16

Perto do final do seu discurso sobre o Estado da União, o presidente Obama destacou: "Não tenho mais campanhas pela frente". Alguns republicanos na plateia logo aplaudiram. Obama sorriu e improvisou a resposta: "Porque já venci as últimas duas".

Não importa que o partido dele tenha na verdade sido derrotado nas mais recentes eleições, entregando o controle de ambas as Casas do Congresso à oposição. Durante uma hora na noite de terça-feira, Obama estrelou no maior palco que terá este ano, confiante e de cabeça erguida, apresentando uma pauta legislativa abrangente e cara.

Assistindo ao Obama desafiador, seria fácil esquecer que ele estava falando apenas dois meses depois da maior rejeição eleitoral à sua presidência. De fato, com os indicadores econômicos apontando para cima e os números da aprovação ao presidente em ligeira recuperação, ele não fez referência às eleições legislativas do ano passado, não fez autocríticas nem propôs concessões para acomodar a realidade política.

Em vez disso, pediu aos republicanos - que resistiram a novos impostos em todas as oportunidades nos seis anos mais recentes - que aumentassem os impostos pagos pelos mais ricos. Pediu aos legisladores que foram eleitos com a promessa de conter os gastos do governo que reabram a torneira dos gastos para oferecer ensino gratuito nas universidades comunitárias, gratuidade nas creches e licença maternidade paga para milhões de americanos de renda intermediária.

Apesar da atitude confiante de Obama, a pergunta trazida por seu discurso era se apresentar iniciativas com pouca ou nenhuma chance de serem aprovadas seria um gesto ousado de liderança ou uma irresponsável perda de tempo.

Todos os presidentes aproveitam o discurso sobre o Estado da União para apresentar ideias sabendo que essas não serão adotadas, ao menos não imediatamente - definindo o contexto do debate, fazendo uma proposta inicial, estabelecendo um marco diante de adversários ou criando espaço para medidas posteriores. Raramente, no entanto, viu-se uma dissociação tão grande entre um presidente e o Congresso quanto agora.

Diferentemente do presidente Bill Clinton, que agiu para cooptar os republicanos em torno de temas como o combate ao crime e o sistema de bem estar social de acordo com seus próprios termos quando o partido adversário capturou o congresso, Obama apontou para a esquerda enquanto o capitólio apontava para a direita.

Conselheiros de Obama dizem que ele não viu muitas razões para conter ambições simplesmente porque a nova maioria republicana dificilmente o acompanharia. Jon Favreau, o ex-chefe de sua equipe de redatores de discursos, disse que conter preventivamente suas metas seria como chegar a uma entrevista de emprego perguntando quanto o empregador deseja pagar, em vez de negociar um salário melhor.

Steve Schmidt, que trabalhou na Casa Branca no governo de George W. Bush e administrou a campanha de John McCain contra Obama em 2008, disse que a proposta do ensino gratuito nas universidades comunitárias e mais licença paga para pais e mães parecia irreal ao ponto do ridículo.

Mesmo sem o apoio do Congresso ao promover suas ideias, Obama obriga os demais atores políticos a responder. Ele pode apontar para esforços anteriores que não tiveram sucesso no Congresso, mas trouxeram progresso em outros níveis. Embora ele tenha fracassado em conseguir a aprovação de um aumento no salário mínimo, alguns Estados responderam ao apelo e adotaram a medida por conta própria.

Os críticos dizem que Obama pode estar dificultando as coisas para sua candidata à sucessão, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, pois a pauta dele pode deslocá-la do centro em 2016. "Ele não a está apenas empurrando", disse David Frum, redator de discursos de Bush, "está também manobrando o partido ao redor dela para limitá-la".

Frum acrescentou que, embora Obama esperasse que sua pauta jogasse os republicanos na defensiva, talvez o efeito seja o oposto. "Trata-se de um documento que une os republicanos", disse ele.

Pode ser que os democratas também fiquem mais unidos, o que deixaria ambos os lados tão distantes quanto em seus piores momentos. Obama fez pouco das acusações de ter se engajado voluntariamente nessa divisão. Ele rebateu os "especialistas" e "cínicos" que o chamaram de "equivocado e ingênuo" por prometer a superação das divisões políticas em Washington.

"É incrível o quanto conseguimos nos recuperar quando precisamos fazê-lo", disse Obama, citando uma jovem mãe cuja família tinha se recuperado após as dificuldades econômicas dos anos mais recentes.

Durante um instante, pareceu que ele estava se referindo a si mesmo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Peter Baker é jornalista

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