Abordagem dos EUA fracassou

Cenários vislumbrados por Washington na Síria estão distantes da realidade e Casa Branca não tem plano B

Hannah Allam, Mcclatchy Newspaper* , O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h03

Com a Rússia mandando mísseis para Damasco, a oposição síria incapaz de concordar em quase nada e os defensores do regime expulsando os rebeldes de áreas estratégicas, os EUA estão sem um claro caminho para destituir Bashar Assad.

Nebulosa desde o início, a política americana sobre a Síria ficou ainda mais contraditória. Os dois caminhos vislumbrados por Washington levaram a becos sem saída, sem oposição forte ou força rebelde confiável para assumir o poder caso Assad seja derrubado.

Na quarta-feira, novos revezes na tentativa de minar Assad. As negociações da oposição em Istambul terminaram sem resultado. No mesmo dia, forças do regime, respaldadas pelo Hezbollah, declararam vitória na batalha pelo controle de Qusayr.

Analistas atribuem a falta de uma posição firme dos EUA a uma série de erros de cálculo. Enquanto a Casa Branca defende a atual abordagem como "cautelosa", outros a veem como inócua.

Um exemplo: enquanto o Hezbollah alardeava a captura de Qusayr, o Departamento de Estado exigia que o grupo se retirasse "imediatamente" da Síria. Michael Hanna, especialista em Oriente Médio do Century Foundation, disse que essa incongruência é o cerne do problema.

Rússia, Irã e Hezbollah se lançaram na luta pela sobrevivência de Assad. Por outro lado, a retórica dura dos EUA não é amparada pela mesma atitude de comprometimento, deixando o governo vulnerável a constrangimentos, como o anúncio do envio de mísseis russos a Assad horas antes de uma cúpula da paz.

Autoridades e analistas se conformaram com a chance de haver anos de derramamento de sangue antes de uma transição, mas Washington ainda aposta que Assad sairá em breve.

Outros governos podem até repensar um cenário em que Assad permaneça no poder, mas os EUA não vislumbram um resultado que não seja uma mudança de regime.

Mesmo que Assad seja deposto, não há nenhum cenário claro para o dia seguinte. Dividida, a oposição depende da ajuda externa. Britânicos e franceses tentam afrouxar o embargo de armas da União Europeia, mas ainda não convenceram os EUA a reconsiderar sua posição de só enviar "ajuda não letal".

O Departamento de Estado admitiu que a unificação da oposição tem "demorado mais que o esperado", mas ainda acredita que ela resolverá suas diferenças a tempo de participar da conferência de Genebra. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É jornalista

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