Daniel Leal-Olivas/PA via AP
Daniel Leal-Olivas/PA via AP

Aborrecidos com Brexit, judeus britânicos miram a Alemanha

Legislação do pós-guerra permite que cidadãos que deixaram o Reich por perseguição podem requerer cidadania

Kimiko de Freytas-Tamura THE NEW YORK TIMES

17 Agosto 2016 | 05h00

Até a Grã-Bretanha votar pela saída da União Europeia (UE), Philip Levine nunca tinha pensado muito em sua herança judaica. Mas, para garantir que ainda possa trabalhar e viver na Europa uma vez que a Grã-Bretanha deixe o bloco, Levine, de 35 anos, britânico e morador em Londres, decidiu fazer o que alguns judeus, incluindo parentes seus, consideravam impensável: pedir cidadania alemã. 

Para isso, usou uma disposição legal alemã em vigor desde 1949, mas pouco usada em anos recentes. Ela permite a qualquer um que tenha sido despojado da cidadania alemã pelos nazistas por motivos “políticos, raciais ou religiosos”, de 30 de janeiro de 1933 a 8 de maio de 1945, e seus descendentes, ter a cidadania restaurada. Os que perderam a cidadania naquele período eram na maior parte judeus, embora outras minorias e opositores políticos também tenham perdido a sua. 

Levine não está sozinho ao se voltar para a Alemanha após a decisão britânica de deixar de ser membro da UE, conhecida como Brexit. Desde o referendo, em junho, a Embaixada da Alemanha em Londres recebeu pelo menos 400 pedidos de informação sobre cidadania alemã concedida sob a medida legal conhecida como artigo 116. 

No mínimo cem solicitações são pedidos formais de indivíduos ou famílias, disse Knud Noelle, funcionário da embaixada. “Esperamos mais nas próximas semanas”, acrescentou, informando que a embaixada normalmente recebe cerca de 20 pedidos desse tipo por ano. 

O interesse dos judeus britânicos é maior que nunca, disse Michael Newman, executivo da Associação de Refugiados Judeus. Também ele está pensando em pedir cidadania alemã. A associação tem sede em Londres. “Não me lembro de ter ouvido falar em pedidos por cidadania alemã nos 75 anos da associação”, acrescentou Newman. “Foi o Brexit.”

Alternativas. A movimentação está entre as mais surpreendente técnicas usadas por britânicos e europeus em busca de um segundo passaporte que lhes permita manter o direito de viajar, trabalhar e viver em qualquer lugar da UE - mesmo depois da concretização da saída britânica, em algum momento dos próximos sete anos. 

Pessoas do continente que vivem na Grã-Bretanha; britânicos que vivem na Europa; e britânicos que vivem em casa, mas querem manter os benefícios da cidadania europeia, estão pesquisando sua genealogia, estudando requerimentos de residência e procurando saídas legais para neutralizar os efeitos do voto britânico pela saída.

“Não imaginava que fosse tão simples”, disse Levine sobre o processo para pedir cidadania alemã. “É literalmente uma porta dos fundos para entrar na Europa.”

A Grã-Bretanha permite dupla cidadania, e judeus ouvidos para esta reportagem disseram que pretendem manter a nacionalidade britânica. Também afirmaram não ter planos imediatos de se mudar para a Alemanha. O que mais esperam da cidadania alemã é a manutenção da liberdade de viajar pela UE e de outros benefícios de pertencer à Europa. Judeus britânicos, especialmente os mais jovens, sentem-se confortáveis sobre a Alemanha, que, para eles, já se confrontou com o passado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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