Aborto e abstinência isolam EUA na conferência sobre população

Os Estados Unidos ficaram isolados hoje numa conferência mundial sobre população, criticados por sua rígida posição em relação ao aborto e sua defesa da abstinência, acima do uso de preservativos, entre adolescentes. Ministros e autoridades governamentais de mais de 40 países participam da Conferência sobre População Ásia-Pacífico, patrocinada pela ONU, realizada a cada 10 anos. O encontro de dois dias se concentrará na população, planejamento familiar, saúde reprodutiva, aids e seus efeitos para a pobreza. A disputa entre os EUA e os demais participantes advém de um acordo internacional sobre planejamento familiar alcançado em 1994, no Cairo. Delegados disseram que Washington ameaçou retirar seu apoio ao acordo do Cairo, alegando que algumas das frases no texto, como "serviços de saúde reprodutiva" e "direitos reprodutivos", podem ser interpretadas como promovendo o aborto e defendendo o sexo na adolescência. Os EUA querem que tais frases sejam removidas do "plano de ação" que deve ser adotado amanhã, no fim da conferência de Bangcoc. Delegados afirmam que a intransigência dos EUA sobre a questão está obstruindo a tarefa mais importante, que é a de lutar contra a pobreza causada pela explosão populacional. "Todos os países desta região mantêm a posição de que o que vocês (americanos) estão exigindo não são mudanças que possam aprimorar este documento", disse Terri Barlett, da Ação Populacional Internacional, um grupo de voluntários baseado em Washington. "Eles dizem que irá piorar e enfraquecer" o documento final, explicou ela. Entre os parágrafos que os EUA querem ver mudados estão alguns que defendem que seja fornecida informação sexual e sobre saúde reprodutiva para adolescentes, casados e solteiros. Uma frase que Washington quer ver retirada fala do "uso consistente de preservativos" como forma de reduzir a vulnerabilidade à infecção por HIV. O delegado americano A. Eugene Dewey disse posteriormente numa entrevista coletiva que as "melhorias" que os EUA querem no texto têm por objetivo garantir que ele "não implique defesa ou apoio ao aborto". Dewey reconheceu que os EUA estão isolados, ao dizer que "todos os demais parecem estar muito contentes com a formulação". Ele também afirmou que não é verdade que os EUA defendem apenas a abstinência para adolescentes. O certo é que Washington prefere abstinência a preservativos, explicou. Críticos dizem que o governo dos EUA está deliberadamente privando jovens de informação sobre preservativos. No começo do mês, a administração Bush bloqueou US$ 34 milhões em fundos destinados pelo Congresso ao Fundo Populacional da ONU. Dewey disse que isso ocorreu devido ao fato de a China, um dos países nos quais o fundo da ONU está trabalhando, tem um programa "coercitivo" de aborto e esterilização. O apoio dos EUA aos programas populacionais é importante para a região Ásia-Pacífico, onde estão cerca de 67% de 1,2 bilhão de pessoas que - estima-se - vivem em extrema pobreza no mundo. A ONU pretende diminuir à metade a proporção de pessoas vivendo com menos de US$ 1 ao dia até 2015.

Agencia Estado,

16 Dezembro 2002 | 15h53

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