Pete Marovich/The New York Times
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Absolvição de Trump é momento decisivo para Partido Republicano

Mesmo offline e fora das câmeras em sua propriedade em Palm Beach, e oferecendo uma fraca defesa por meio de sua equipe jurídica, Donald Trump continua sendo uma força dominante na direita

Alexander Burns, The New York Times

15 de fevereiro de 2021 | 11h55

WASHINGTON — Durante o primeiro julgamento de Donald Trump, há 13 meses, o ex-presidente teve a fidelidade quase total de seu partido. Seus defensores conservadores eram fervorosos e numerosos, e os votos dos republicanos para condená-lo — por pressionar a Ucrânia a ajudá-lo a difamar Joe Biden — praticamente não existiam.

Em seu segundo julgamento, Trump, que não é mais presidente, recebeu um apoio republicano menos feroz. Seus defensores eram mais escassos e pareciam pouco entusiasmados.

Muito menos conservadores defenderam suas ações, e  insistiram em queixas técnicas enquanto contornavam a questão da acusação de incitar o motim de 6 de janeiro no Capitólio.

E desta vez, sete senadores republicanos votaram junto com os 50 democratas para condenar Trump — o repúdio mais bipartidário já feito em um processo de impeachment.

No entanto, a grande maioria dos republicanos se recusou a declarar Trump culpado, deixando a Câmara bem longe da maioria de dois terços necessária para condená-lo.

Até o líder da minoria no Senado, Mitch McConnell, que surpreendeu seu partido no mês passado com uma forte denúncia da conduta de Trump, votou por sua absolvição, alegando argumentos processuais fracos.

A absolvição de Trump representa um momento de definição para o partido que ele moldou em um culto à personalidade, que provavelmente permanecerá assim aos olhos dos eleitores e deixará uma marca profunda em sua história.

Agora que os republicanos perderam a oportunidade de bani-lo através de um impeachment, não está claro quando — ou como — eles podem transformar a legenda em algo diferente de um barco para um demagogo semi-aposentado que foi repudiado pela maioria dos eleitores.

Derrotado pelo presidente Joe Biden, destituído de seu megafone das redes sociais, novamente impugnado pela Câmara e acusado de trair seu juramento por um punhado de dissidentes republicanos, Trump continua sendo a força dominante na direita americana. 

Mesmo offline e fora das câmeras em sua propriedade em Palm Beach, na Flórida, e oferecendo apenas uma débil defesa de impeachment por meio de sua equipe jurídica em Washington, o ex-presidente continua recebendo admiração incomparável dos eleitores conservadores.

A determinação de tantos legisladores republicanos em descartar a montanha de evidências contra Trump — incluindo a revelação de que ele ficou do lado dos desordeiros em uma conversa acalorada com o líder da minoria na Câmara, Kevin McCarthy — reflete o quanto o partido foi definido por um homem, e quão divorciado agora parece estar de qualquer conjunto mais profundo de aspirações políticas e princípios éticos ou sociais.

Depois de fazer campanha no ano passado com uma mensagem de lei e ordem, os legisladores republicanos decidiram não aplicar esses padrões a um ex-presidente que incitou com uma multidão.

Um partido que muitas vezes proclamou "Vidas azuis importam" se recusou a punir um político cujos apoiadores enfurecidos atacaram a Polícia do Capitólio. A retórica de uma geração sobre responsabilidade pessoal parece fraquejar para acomodar Trump.

Lanhee Chen, da Hoover Institution e consultor político para vários funcionários republicanos proeminentes, disse que a legenda deve se redefinir como um partido com ambições além da fidelidade a um único líder.

"Quando o movimento conservador, quando o Partido Republicano, teve sucesso, era um partido de ideias", disse. "Enquanto nos concentrarmos nas personalidades, falaremos sobre Marjorie Taylor Greene e Trump, esta ou aquela pessoa. Muitos republicanos estão mais focados em falar sobre ele do que sobre o que está por vir, e esse é um lugar muito perigoso."

Nas últimas semanas, o partido esteve tão submerso em um conflito interno, e tão refém de seu medo de Trump, que fez apenas uma crítica hesitante e parcial das iniciativas de Biden, incluindo seu pedido de que o Congresso gastasse US$ 1,9 trilhão para combater a pandemia e reanimar a economia.

Trump dificultou a tentativa dos republicanos de desenvolver sua própria mensagem política: seu desprezo pelas restrições fiscais e seu endosso, em dezembro, a pagamentos em dinheiro de US$ 2 mil como pacore de estímulo deixaram os republicanos no Congresso em uma posição fraca para se opor aos planos de Biden.

O mandato de Trump como agente do caos político provavelmente não acabou. O ex-presidente e seus assessores já deixaram claro que pretendem usar as eleições de meio de mandato de 2022 como uma oportunidade para recompensar aliados e vingar aqueles que cruzaram o caminho de Trump. E pairando sobre a legenda está a possibilidade de outra candidatura à Casa Branca em três anos.

Resta saber com que agressividade a liderança do partido buscará conter esses esforços. McConnell disse a aliados que pretende travar uma batalha nacional em 2022 contra os candidatos de extrema-direita e defender os alvos de Trump.

Mas ao se recusar a condenar Trump no sábado, McConnell deixou dúvidas sobre se ele estaria mais disposto a lutar abertamente com Trump na campanha eleitoral do que estava no plenário do Senado.

Apenas alguns republicanos de alto escalão chegaram a dizer que é hora de Trump perder totalmente seu status de senhor do partido. A deputada Liz Cheney, de Wyoming, a mais importante republicana da Câmara a apoiar o impeachment, disse em uma recente entrevista que Trump "não tem o papel de líder de nosso partido no futuro".

Cheney pode estar emergindo como a líder de fato das forças anti-Trump na Câmara, e certamente enfrentará um desafio feroz da direita em seu distrito natal no próximo ano. Enquanto rechaçava o esforço dos partidários de Trump para removê-la de sua posição de liderança, dezenas de seus colegas republicanos votaram por sua deposição, mesmo após um apelo de McCarthy para mantê-la em seu posto.

Em Washington, uma maioria silenciosa de funcionários republicanos parece estar adotando o pensamento positivo que os guiou durante a primeira campanha de Trump em 2016 e depois durante grande parte de sua Presidência, insistindo que ele logo seria marginalizado por sua própria conduta ultrajante ou que ele não teria disciplina para se tornar um líder político duradouro.

Esse raciocínio raramente valeu para os adversários de Trump, que aprenderam que a única maneira segura de controlá-lo era vencê-lo nas urnas. Assim, essa tarefa recaiu quase inteiramente sobre os democratas, que conquistaram a Câmara em 2018 para controlar Trump e o expulsaram da Casa Branca em novembro.

Se essa projeção parece ancorada mais na esperança do que na experiência, há boas razões para os republicanos torcerem pela saída de Trump do palco político. Sua popularidade pode ser forte na direita, mas sua posição geral caiu nas pesquisas públicas desde a eleição e pesquisas revelaram que a maioria do país era favorável à sua condenação.

Mesmo em lugares onde Trump mantém seguidores poderosos, há um crescente reconhecimento de que a perda da Casa Branca e do Senado pelo partido em 2020, e da Câmara dois anos antes, não aconteceu por acidente — e que  o partido de Trump provavelmente não será atraente o suficiente para reconquistar o controle do Congresso no próximo ano.

Jason Shepherd, um candidato à presidência do partido na Geórgia, no entanto, reconheceu que a próxima leva de candidatos já está olhando para o ex-presidente como modelo.

"Os republicanos estão tentando se posicionar como o próximo Donald Trump. Talvez, em termos de personalidade, um Donald Trump mais gentil e educado, mas alguém que se levantará contra a esquerda e lutará por princípios conservadores que unem os republicanos."

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