Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Absolvição de Trump polariza ainda mais o Partido Republicano

Apoiadores do ex-presidente apostam na sua força eleitoral daqui a quatro anos

Amy B. Wang, The Washington Post

16 de fevereiro de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Um dia depois de o Senado ter absolvido o presidente Donald Trump em seu segundo julgamento de impeachment, os republicanos continuaram a divergir a respeito do futuro de seu partido, com o abismo entre aqueles que não querem ter nada a ver com o ex-presidente e aqueles que o apoiam abertamente aprofundando-se cada vez mais. A divisão se desenrola enquanto Trump promete retornar à política, e ambas as facções do Partido Republicano proclamam que prevalecerão nas eleições parlamentares de 2022.

Enquanto isso, a retaliação começou contra os sete senadores republicanos que mudaram de lado no sábado, 13, para votar com os democratas pela condenação de Trump pela acusação de incitar a insurreição. O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, marcou posição no campo de Trump, no domingo, 14, criticando duramente seus colegas republicanos - incluindo o líder do partido.

O líder na minoria no Senado, Mitch McConnell, republicano do Kentucky, votou pela absolvição do ex-presidente - em seguida discursando longamente à Casa a respeito de como Trump tinha, na visão dele, “responsabilidade moral e prática” ao incitar a multidão que atacou o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro.

O cerco violento deixou cinco mortos, incluindo um policial. Dois outros agentes que ajudaram a combater a multidão no Capitólio se suicidaram nos dias que se seguiram, e suas famílias querem que suas mortes sejam reconhecidas como mortes no “cumprimento do dever”.

McConnell pode ter tirado “um peso das costas” com seu discurso, afirmou Graham, mas também tornou a si mesmo um alvo dos republicanos pró-Trump em 2022.

“Donald Trump é o mais vibrante membro do Partido Republicano”, declarou Graham a Chris Wallace, apresentador do "Fox News Sunday”. “O movimento de Trump está vivo e bem. Tudo que posso dizer é que a força mais poderosa no Partido Republicano é o presidente Trump. Nós precisamos de Trump.”

A sonora defesa de Graham deixou claras as divisões que Trump causou no Partido Republicano nos quatro anos mais recentes. Há republicanos afirmando que devem se distanciar de Trump para sobreviver e outros acreditando que se curvar ao trumpismo é o único caminho. Até então, Graham se mostrava hesitante, tentando apelar a ambos os lados alternadamente, mas. no domingo. ele deixou claro que pertence à facção trumpista e pareceu gostar de desempenhar o papel de defensor de Trump.

“Muita gente me pedia… 'Acalme o presidente Trump, fale com ele, faça com que ele se acalme’. Às vezes ele se acalma, às vezes, não. Mas, para meus colegas republicanos, essa é uma via de duas mãos”, afirmou Graham. “Eu gosto de vencer. E, se você quiser tirar um peso da consciência, tudo bem. Mas eu gosto vencer.”

Em alguns momentos de sua entrevista com Wallace, Graham mais parecia ler um roteiro feito para Trump. Ele criticou o julgamento de impeachment, qualificando-o como “uma completa piada” e o presidente Joe Biden, por tentar avançar com a “mais radical de suas pautas”.

Quando questionado a respeito da recente decisão de Nikki Haley, ex-embaixadora americana na ONU, de se distanciar de Trump, após tê-lo apoiado firmemente e não ter criticado suas alegações infundadas de fraude eleitoral, Graham afirmou que sua colega da Carolina do Sul estava “errada”.

Ele também afirmou que Lara Trump, nora do ex-presidente, deveria se apressar para substituir o senador Richard Burr, republicano da Carolina do Norte prestes a se aposentar, que surpreendeu ao votar pela condenação de Trump no sábado.

“Acho que a grande vencedora desse julgamento de impeachment é Lara Trump”, afirmou Graham. “Se ela concorrer, certamente a apoiarei, porque acho que ela representa o futuro do Partido Republicano.”

O apoio descarado de Graham a Trump - desafiando líderes veteranos do Partido Republicano - ocorre ao mesmo tempo em que vários republicanos graduados que ousaram criticar o ex-presidente foram punidos pelos diretórios estaduais ou regionais do partido.

No sábado, 13, o senador Bill Cassidy, da Louisiana, se tornou o mais recente republicano a ser censurado pelo diretório estadual de seu partido em razão de seu voto de condenação a Trump. Cassidy tinha votado anteriormente contra a constitucionalidade do julgamento, mas disse que mudou de ideia após ter escutado os argumentos da comissão de deputados federais que defendeu o impeachment no Congresso. Ao longo do julgamento, ele parecia devorar reportagens nas horas livres e levantava questões específicas para preencher as lacunas.

Finalmente, Cassidy votou “culpado" e publicou um vídeo de 10 segundos para explicar sua decisão. “Nossa Constituição e nosso país são muito mais importantes do que qualquer pessoa. Votei pela condenação do presidente Trump porque ele é culpado”, afirmou Cassidy no vídeo.

No domingo, ao programa de televisão This Week, da rede ABC, Cassidy desconsiderou preocupações a respeito do significado de Trump para o futuro do Partido Republicano.

“Acho que sua força minguará”, afirmou Cassidy. “O Partido Republicano é mais do que apenas uma pessoa. O Partido Republicano defende ideias.”

O governador de Maryland, Larry Hogan, republicano franco em relação às suas críticas a Trump, previu no domingo “uma verdadeira batalha pela alma do Partido Republicano nos próximos dois anos”.

“Fiquei muito orgulhoso de alguns colegas que defenderam suas posições e fizeram a coisa certa. Isso nem sempre é fácil. Na verdade, às vezes é bem difícil contrariar a sua base e seus colegas e fazer o que acreditamos ser o correto para o país”, afirmou Hogan ao programa de TV Meet the Press, da emissora NBC.

Hogan, que não descarta concorrer à presidência em 2024, afirmou que mais republicanos votariam contra Trump se os membros do partido não temessem retaliações de Trump e seus apoiadores.

“Muitos republicanos estão ultrajados, mas não têm coragem de se levantar e expressar isso no voto, porque têm medo de serem desafiados nas primárias ou de terem suas carreiras arruinadas”, acrescentou ele.

Trump, por sua vez, não demonstrou nenhum interesse em desaparecer no comunicado que emitiu pouco após a votação no Senado, no qual qualificou o processo de impeachment como uma “caça às bruxas” e lamentou que nenhum outro presidente foi submetido a tamanha desonra.

“Nosso movimento histórico, patriótico e lindo para Tornar os EUA Grandes Novamente está apenas começando”, declarou Trump.

Trump, que sinalizou a intenção de concorrer à presidência em 2024, acrescentou que “nos próximos meses, tenho muito a compartilhar com vocês”.

Vários republicanos tentam livrar o partido da influência de Trump. No mês passado, o republicano Adam Kinzinger, de Illinois, um dos 10 republicanos que votaram pelo impeachment de Trump na Câmara dos Deputados, lançou o movimento político Country First (o país em primeiro lugar) para contestar o apoio de seu partido ao ex-presidente (ele também foi censurado por seu diretório local republicano).

No fim de semana, Evan McMullin, diretor executivo da organização política sem fins lucrativos Stand Up Republic, falou a respeito de sua reunião virtual com mais de 120 dirigentes republicanos com o objetivo de fundar um novo partido ou uma nova facção republicana.

“Bom, acho que está claro… que algo novo é necessário”, afirmou McMullin à MSNBC no sábado. “Quarenta por cento do eleitorado sentem que não há esperança de que o Partido Republicano seja capaz de se reformular e voltar a participar de um processo político sadio nos EUA.”

McMullin afirmou que a facção hipotética poderia apresentar candidatos nas primárias contra “os republicanos que mais abandonaram nossa democracia”, citando como exemplos os republicanos Andy Biggs e Paul Gosar, do Arizona. McMullin - que  concorreu como candidato independente nas eleições presidenciais de 2016, em grande parte motivado pelo que ele via como uma atração alarmante que Trump exercia no Partido Republicano - afirmou que o processo de impeachment de Trump e sua subsequente absolvição “intensificaram" as discussões a respeito de um terceiro partido.

“Temos o compromisso de tomar um novo rumo, seja para lutar pela conquista da direção do Partido Republicano ou para competir com ele diretamente”, afirmou McMullin.

Os democratas defenderam sua decisão de não convocar testemunhas no sábado em parte porque reconheceram o grau em que os senadores republicanos ainda apoiavam Trump. Em sua maioria, os republicanos votaram em sintonia com Trump durante sua presidência. Em seu discurso, no sábado, McConnell justificou seu voto pela absolvição afirmando acreditar que o julgamento era inconstitucional, porque Trump não era mais presidente quando a Casa recebeu o pedido de impeachment - sem mencionar que ele próprio havia se recusado a reconvocar o Senado até a véspera de Trump deixar o cargo.

O senador Chris Murphy, democrata de Connecticut, afirmou estar razoavelmente certo de que haveria votos suficientes para condenar Trump caso a votação fosse secreta. Murphy também rejeitou comentários de republicanos dizendo que, se o presidente em julgamento fosse do Partido Democrata, o resultado seria o oposto.

“Penso que esse culto à personalidade construído em torno do presidente Trump é fundamentalmente distinto”, afirmou Murphy no domingo ao State of the Union, da CNN. “Realmente não acredito que democratas correriam para defender um presidente do nosso partido que estivesse essencialmente tentando anular uma eleição.”

No domingo, os deputados federais da comissão que defendeu o impeachment afirmaram que não faria diferença se os democratas tivessem convocado mais testemunhas. O resultado da votação não se alteraria.

“Uma vez que Mitch McConnell deixou clara sua intenção se absolvê-lo. A comissão pró-impeachment não precisava de mais testemunhas nem de mais provas”, afirmou o senador Chris Coons, democrata de Delaware, ao programa This Week, da ABC. “O que todos nós precisávamos era de mais coragem por parte dos republicanos.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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