Manuel Elias / AFP
Manuel Elias / AFP

Artigo: Abstenção é ‘recado de despedida’

Decisão dos EUA reflete frustração do presidente Obama com aumento no número de assentamentos

Carol Morello & Ruth Englash / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2016 | 05h00

O Conselho de Segurança (CS) da ONU aprovou na sexta-feira uma resolução exigindo que Israel pare de construir assentamentos em território ocupado. A aprovação, unânime, ocorreu com os Estados Unidos se abstendo de votar ao invés de vetar.

A resolução declara que os assentamentos construídos em terras ocupadas por Israel desde a guerra de 1967 não têm “validade legal”. Ela afirma que as construções ameaçam a viabilidade da solução de dois Estados e pede a israelenses e palestinos que voltem às negociações visando a duas nações independentes.

A abstenção dos EUA foi uma rara repreensão a Israel e refletiu a crescente frustração do governo Barack Obama com o aumento no número de assentamentos, o que ele considera um obstáculo para a paz. Com seu mandato chegando ao fim, a decisão de não vetar foi uma declaração simbólica desse descontentamento e um sinal de que chegou a hora de a solução de dois Estados predominar.

A decisão do governo foi também um desafio à sugestão de Donald Trump de que os EUA vetassem a resolução. O futuro governo do magnata vem indicando que haverá uma mudança na política americana para Israel. Uma hora depois da votação de sexta-feira, o presidente eleito tuitou: “Quanto à ONU, as coisas serão diferentes a partir de 20 de janeiro”.

Trump apoia a mudança da embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém. E indicou para próximo embaixador dos Estados Unidos em Israel o advogado especialista em falências David Friedman, que defende que os israelenses deveriam anexar a Cisjordânia e fazer mais assentamentos.

Não ficou claro qual impacto a resolução terá, se é que terá algum. Estudiosos de direito diferem sobre seu alcance prático. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, já declarou que seu país não obedecerá à determinação.

Cerca de 400 mil judeus vivem em 150 assentamentos na Cisjordânia, em terras que os palestinos querem para um futuro Estado. Além disso, 200 mil israelenses vivem em Jerusalém Oriental.

A maioria dos países considera os assentamentos ilegais. Diplomatas americanos os caracterizam como ilegítimos e dizem que aumentam as tensões entre israelenses e palestinos. Por duas vezes, o governo Obama tentou tirar do impasse as negociações de paz. Na investida mais recente, nove meses de intensos esforços diplomáticos do secretário de Estado, John Kerry, ruíram em 2014.

Netanyahu afirmou que estava satisfeito com a entrada de Trump no lugar de Obama, cujo governo, segundo ele, “conspirou” para um ataque diplomático a Israel.

Diplomatas palestinos consideraram a resolução uma chance de salvar a possibilidade de dois Estados e congratularam-se com uma decisão que reflete seu ponto de vista. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.