Abstenção é recorde nas eleições francesas

Mais de 39% dos eleitores - ou 17,5 milhões de franceses - não votaram

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 02h48

Tão espetacular quanto a vitória da direita no primeiro turno das eleições legislativas, só a indiferença dos eleitores na França. Fossem votos atribuídos a um partido, as abstenções formariam a segunda maior bancada na Assembléia Nacional, com 39,5% - ou 17,5 milhões de votos. O nível de abstenção é 11 pontos percentuais superior ao conquistado pelo Partido Socialista (PS), o segundo mais votado. Pior: a cifra reafirma pela segunda eleição consecutiva o desinteresse dos franceses pela formação do parlamento. Em 2002, recorde até hoje, 35,62% dos eleitores inscritos não compareceram às urnas. A baixa adesão dos eleitores ao pleito vinha se anunciando ao longo deste domingo, 10. Às 17 horas, uma hora antes do fim do prazo para votação na maior parte do país, a parcial divulgada pelo Ministério do Interior indicava que menos da metade dos eleitores (49,28%) havia comparecido a suas seções eleitorais. Em Paris, onde as urnas foram fechadas às 20 horas, a taxa de participação até o meio-dia era de 16,22%. A baixa adesão se repetia na Île de France, conjunto de municípios da região metropolitana, com parciais de 12,5% em Val-de-Marne e 13,29% em Val-d´Oise. Em Seine-Saint-Denis, onde eclodiram os conflitos entre jovens e a polícia em 2005 e 2006, 14,76% eleitores haviam comparecido às urnas. Os alertas de que o pleito ao parlamento não despertava interesse nos eleitores eram múltiplos nas últimas cinco semanas - após a realização do segundo turno da eleição presidencial. Cientistas políticos encontraram múltiplas explicações para a apatia popular. A mais freqüente se referia à saturação dos eleitores, depois de uma longa campanha presidencial - iniciada em novembro de 2006, com a indicação de Ségolène Royal pelo Partido Socialista, e 6 de maio, com a vitória de Sarkozy. Também a certeza de vitória da direita, argumentaram líderes socialistas, teria levado à desilusão dos eleitores de esquerda, em especial jovens e de baixa renda. "Sei que vocês não vieram às urnas porque estão desiludidos, tristes com a vitória da direita na eleição presidencial. Mas a democracia precisa de uma grande força de oposição. A França precisa de vocês, para que a esquerda busque seus novos caminhos", discursou, na noite deste domingo, Ségolène Royal, candidata à presidência do PS derrotada nas eleições de abril e maio. Quem votou neste domingo o fez, de modo geral, por dois motivos: afirmar a maioria de direita e declarar apoio incondicional ao presidente Nicolas Sarkozy, ou impedir que o PS enfrentasse uma derrota histórica, marcada por novo recuo no número de deputados. Na seção eleitoral 88 do 15º distrito de Paris, situada em uma escola elementar da prefeitura de Paris, eleitores de esquerda justificavam o comparecimento às urnas pela preocupação com a derrota iminente. "Nossa mobilização é importante para que tenhamos voz no parlamento. Votei socialista, mas creio que a UMP vá sair vitoriosa no meu distrito e na Assembléia. Fico preocupada que não tenhamos uma voz forte de oposição", disse a aposentada Madelaine Martinho, 74 anos. "É importante que tenhamos um parlamento forte, o que não existe sem oposição. A UMP sai desta eleição muito forte", completou uma professora, que preferiu não ser identificada. Em uma zona eleitoral com muitos eleitores idosos, o jovem Jean-Baptiste Kane, 18 anos, mostrou-se sintonizado com a "onda Sarkozy". "Votei no candidato do Partido Verde, porque acredito cada vez mais na importância desde tema para a sociedade e para o mundo. Mas estou satisfeito com nosso presidente. Se meu candidato não passar ao segundo turno, votarei UMP", garantiu. "Não me importa que a bancada majoritária seja grande. Pelo contrário, é sinal de força e de apoio popular." Para alguns partidos, como o Comunista, a expectativa de um maior comparecimento às urnas no segundo turno representa a esperança de reversão da derrota anunciada. "Em 2002, estimavam que faríamos entre seis e 12 cadeiras na Assembléia Nacional, e fizemos 21. O PCF não está morto. Não nos menosprezem", disse Marie-George Buffet, líder da sigla e ex-candidata na eleição presidencial, na qual obteve 1,93% da preferência, o pior resultado da história da legenda.

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