Abstenção invalida referendo sobre aborto em Portugal

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, anunciou que o país pretende legalizar o aborto no Parlamento. No domingo, por meio de um referendo, a população decidiu pela descriminalização, mas a consulta popular foi anulada, pois menos de 50% dos eleitores compareceram às urnas.De acordo com uma pesquisa de boca-de-urna realizada pelo canal estatal de televisão RTP e pela Universidade Católica, apenas 44% dos eleitores participaram do referendo. Desses, 59,3% optaram pela legalização do aborto e 40,7% mostraram-se favoráveis à proibição.Para Sócrates, apesar de a consulta popular ter sido invalidada, o resultado mostra que a maioria da população é favorável à descriminalização. "A lei será discutida no Parlamento", disse o primeiro-ministro, em um pronunciamento na televisão. "Nosso interesse é combater o aborto clandestino e nós temos que produzir uma legislação que respeite o resultado do referendo."No domingo, choveu durante todo o período de votação em Portugal, o que pode ter contribuído para desencorajar os eleitores. Em 1998, um referendo semelhante também foi anulado por abstenção. Na ocasião, somente 32% do eleitorado compareceu às urnas.Tradição católicaA campanha pela legalização do aborto, que contou com o apoio de Sócrates, opôs, de um lado, os católicos desse país - um dos mais conservadores da Europa -, e do outro, os jovens liberais urbanos, que esperavam que Portugal tivesse uma legislação equivalente à da maioria das outras nações européias.Se a proibição for mantida, Portugal continuará a ser um entre um pequeno grupo de países europeus - Malta, Irlanda e Polônia - que proíbe o aborto. No domingo, no Santuário de Fátima, ao norte de Lisboa, católicos rezaram e manifestaram seu apoio à proibição. "Votamos pela vida, que é a nossa obrigação", disse uma freira ao sair de um posto de votação, no maior santuário católico do país.A campanha pelo "não" - contra a legalização - afirmou que o fim da proibição aumentaria o número de abortos e os custos públicos com saúde. A mensagem da campanha pelo "sim" defendeu que, com a descriminalização, será possível acabar com os abortos clandestinos.Enquanto os liberais esperam que Portugal ponha fim a uma proibição que consideram antiquada, os líderes católicos continuam manifestando preocupação com a possibilidade de que a legalização do aborto abra caminho para o abandono de outros valores tradicionais no país.Este texto foi alterado às 8h01 para acréscimo de informações

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.