Abu Ghraib e o fracasso americano no Iraque

Fechamento de prisão ilustra o colapso de um projeto lançado em um surto de loucura, durante governo de George W. Bush, mas abandonado quando Washington se cansou dele

Andrew J. Bacevich*, Los Angeles Times/O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2014 | 02h00

O governo do Iraque anunciou na semana passada que havia fechado a infame prisão de Abu Ghraib. Os portões estão lacrados. Os prisioneiros, transferidos. Se o fechamento é permanente ou temporário - autoridades iraquianas sugerem o último -, isso deveria se qualificar como um marco notável.

O que significa? Às vezes, uma prisão é apenas um edifício e seu fechamento não tem maior significado do que a demolição de um mercado ou o fim de um centro comercial. De vez em quando, porém, a desativação de uma instalação construída com a finalidade de confinar seres humanos convida à reflexão. Oferece uma oportunidade de aprender.

Quando os EUA esvaziaram os campos de confinamento nos quais haviam encarcerado imigrantes japoneses, no início da 2.ª Guerra, autoridades americanas esperavam com isso apagar da memória um capítulo vergonhoso da história americana recente. Se tivessem conseguido isso, uma grave injustiça ficaria sem registro. Não menos importante, uma advertência sobre os perigos da histeria induzida pela guerra teria se perdido.

Em 1986, o edifício no qual o reverendo Martin Luther King Jr. escreveu sua Carta da Prisão de Birmingham caiu, derrubado por uma bola de demolição. Pessoas avisadas do fim da prisão salvaram a porta da cela na qual Luther King escreveu sua famosa carta. Agora em exposição num museu local de direitos civis, ela educa visitantes sobre a longa luta pela igualdade racial. Talvez também ajude os cidadãos de Birmingham, Alabama, a acertarem as contas com o passado.

Alcatraz oferece outro exemplo de uma prisão que dá testemunho. Alguns anos depois de ser fechada, o Serviço Nacional de Parques teve a ideia de oferecer visitas guiadas à antiga penitenciária federal. As multidões que acorrem a esse lugar de miséria e desolação, que já abrigou figuras como Al Capone e "Machine Gun" Kelly, atesta a curiosa, mas duradoura, afinidade americana com renegados. Será consideração pelo não conformismo ou algo mais infame que nos atrai para facínoras, gângsteres e pervertidos?

O fechamento de Abu Ghraib significa algo completamente diferente, mas também tem muito a ensinar. Dez anos atrás, o presidente George W. Bush prometeu que os Estados Unidos fechariam e depois "demoliriam a prisão que era um símbolo adequado ao novo começo do Iraque". Substituir a penitenciária seria algo melhor e mais humano, algo que justificaria a empreitada em que os EUA estavam então engajados. Bush deixou a vida pública e as forças americanas saíram do Iraque sem cumprir essa promessa, ao lado de tantas outras.

O fato de o governo iraquiano ter feito agora o que Bush não conseguiu representa tudo menos um novo começo. Ilustra, antes, o colapso em curso do projeto lançado num surto de loucura extravagante e depois abandonado quando os americanos se cansaram e decidiram dar um basta.

Até 2003, Abu Ghraib fazia parte do aparato que Saddam Hussein usava para aterrorizar iraquianos e submetê-los a sua visão sobre o futuro. Após 2003, com Saddam removido do poder, ela se tornou parte do aparato que as autoridades americanas idealizaram para coagir os iraquianos a aceitar a visão de Washington sobre o seu futuro.

Evidentemente, o governo Bush anunciou seu propósito como o inverso do de Saddam. O ditador iraquiano representava crueldade e opressão. Os EUA representavam liberdade e democracia.

Mais do que qualquer outro evento isolado da guerra do Iraque, foi o escândalo de Abu Ghraib, em 2004, que tornou essa distinção insustentável. Os soldados americanos que tão grotescamente abusaram de detentos iraquianos nessa prisão expeliram o que restava de ar no balão da libertação.

Agora, o fechamento da prisão desnuda a plena magnitude do fracasso americano no Iraque. O que levou as autoridades de Bagdá a agir foi seu medo de que militantes sunitas tomassem Abu Ghraib.

A "libertação" dos que estavam presos ali engrossaria as fileiras da insurgência que está mergulhando novamente o Iraque numa guerra civil. A estabilização parcial atribuída ao chamado reforço de tropas orquestrado em 2007-2008 - posteriormente chamada de "vitória" - está hoje quase totalmente desfeita.

O governo iraquiano abandonou a prisão porque o próprio Iraque está se desfazendo. São os iraquianos e não os americanos que terão de lidar com as consequências, é claro. Mesmo assim, essas consequências deveriam fazer pensar os que defendem uma intervenção americana em lugares como Síria e Ucrânia. Para quem quiser ouvir, as lições de Abu Ghraib são inconfundíveis.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Andrew J. Bacevich é professor na Universidade de Boston, onde prepara o curso online 'A guerra dos EUA pelo grande Oriente Médio'.

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