Abusos no Paquistão e os interesses americanos

Grandes nações democráticas, como os EUA, não podem ignorar os fracos e violentados

Walter Rodgers, The Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2011 | 00h00

Para persuadir o Paquistão a uma maior cooperação no combate aos terroristas, os Estados Unidos suspenderam centenas de milhões de dólares de ajuda militar. Não teriam eles também a coragem de cortar ajuda por causa do abominável tratamento a que as mulheres são submetidas no Paquistão? O fato é que o Paquistão há muito que vem travando coletivamente uma guerra de terror contra 49% de sua própria população: contra suas mulheres, mães, irmãs e filhas. No entanto, os estrangeiros raramente ouvem uma queixa sobre essa história.

Estupro, violência doméstica, molestamento sexual, crimes de honra, abuso e discriminação contra mulheres continuam sendo problemas graves no Paquistão. A TrustLaw, uma organização que oferece ajuda jurídica e informação sobre direitos das mulheres, classifica o Paquistão como o terceiro país mais perigoso para mulheres (depois de Congo e Afeganistão). Se sucessivos governos e o Congresso americanos não são mais firmes contra essas violações criminosas dos direitos humanos é porque não querem.

Ataques sexuais são tão comuns que nem são reportados. Recentemente, uma paquistanesa idosa foi obrigada a desfilar nua por uma aldeia no Punjab. A razão? O filho da mulher estava mantendo um relacionamento adúltero.

Segundo o último Relatório da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, 3 mil mulheres foram violentadas em 2010 e 791 assassinadas nas chamadas "mortes por honra".

Azra Rashid, uma ativista canadense-paquistanesa defensora dos direitos das mulheres, diz que esses números estão grosseiramente subestimados. "Ataque sexuais são tão comuns que as mulheres nem sequer os denunciam.

As garotas crescem sem saber o que é ataque sexual quando são tocadas de maneira imprópria." Rashid diz que quando menina era frequentemente apalpada e acariciada a caminho do mercado.

Por que as mulheres paquistanesas não denunciam esses crimes à polícia? Não faz muito tempo, uma jovem paquistanesa e sua irmã foram a um posto policial denunciar o desaparecimento de um irmão. As duas foram detidas e violentadas várias vezes por policiais. "Na melhor hipótese, a polícia paquistanesa não acredita em vítimas de estupro, os políticos não ligam, e os paquistaneses vieram a aceitar isso como parte de sua realidade cotidiana", diz Rashid.

Um importante político paquistanês foi citado recentemente dizendo que se uma mulher for violentada e não puder trazer quatro testemunhas independentes que viram o ato, ela não deveria se dar ao trabalho de denunciá-lo. Isso, apesar do fato de que a lei não exige mais quatro testemunhas para comprovar o estupro.

O Paquistão melhorou sua legislação de proteção às mulheres nos últimos anos, mas a falta de aplicação da lei e as atitudes estabelecidas bloqueiam o progresso.

Ácido. Não é apenas o estupro. O ex-marido de uma amiga paquistanesa ameaçou jogar ácido no rosto dela se ela saísse com outro homem. Não é incomum ver mulheres paquistanesas com os rostos marcados por esses ataques com ácido. O Centro de Documentação de Refugiados da Irlanda que reporta crimes contra mulheres paquistanesas disse que, "em casos extremos, as punições incluem a mulher ser enterrada viva". Os homens paquistaneses raramente são condenados por crimes contra mulheres.

Disputas sobre gado e terras nas áreas rurais são geralmente acertadas com uma parte entregando à outra uma filha menor de idade. O Paquistão rural vive no século 14. O campo está muito familiarizado com donos de terras opulentos trancando servas adolescentes em currais e usando-as para seu prazer. As empregadas domésticas em cidades são tão vulneráveis que sua condição é considerada pior que a de escravos. "A sociedade toda é dirigida por homens, e deformada", diz Rashid.

Num caso de maior repercussão, Mukhtara Mai foi estuprada em grupo por ordem do conselho de sua aldeia em 2002 porque seu irmão teria alegadamente cometido adultério com a filha de um senhor feudal de um clã adversário. Todos menos 1 dos 14 homens acusados foram inocentados neste ano.

Em uma entrevista para o jornal The Washington Post em 2005, o então presidente Pervez Musharraf admitiu que o estupro era um problema no Paquistão, mas acrescentou: "Muitas pessoas dizem que se você quiser ir para o exterior e obter um visto ou uma cidadania canadense e ser uma milionária, seja violentada." Os EUA não deviam ter medo de jogar duro.

O governo americano em geral fecha os olhos para tudo isso, concedendo ao Paquistão US$ 3 bilhões por ano em assistência econômica e militar. Mas por que os impostos de qualquer mulher (ou homem) americana deveriam ser usados para sustentar um governo paquistanês que considera aceitáveis crimes contra sua população feminina? Alguns apologistas cacarejam e dizem: "Não abandonem o Paquistão. Ele tem cem armas nucleares". Mas na guerra fria, os Estados Unidos corajosamente capitanearam a causa de judeus soviéticos quando os russos tinham milhares de armas nucleares.

Temor. Para os que receiam que se os Estados Unidos abandonarem o Paquistão ele poderá cair na órbita da China, a resposta apropriada devia ser: "Ótimo! Eles se merecem".

O medo de um Paquistão errático e nossa própria desavergonhada conveniência política não deveriam ser a força motriz por trás da política americana para Islamabad. Esses são os valores da bancarrota moral e política. Grandes nações democráticas não abandonam os fracos, os abusados e os violentados, por conveniências políticas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-CORRESPONDENTE INTERNACIONAL SÊNIOR DA CNN

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