Acabar com a violência pelo diálogo

Queixa política só pode ser atendida em termos políticos; falar com terroristas não significa ceder às suas reivindicações

Fareed Zakaria, The Washington Post

12 de julho de 2015 | 02h03

Uma reunião na terça-feira perto da capital do Paquistão, Islamabad, poderá marcar o começo do fim da mais longa guerra travada pelos EUA - o conflito do Afeganistão, que vai completar 15 anos. Uma delegação do governo afegão encontrou-se com membros do Taleban - na presença de observadores paquistaneses, chineses e funcionários de alto escalão do governo americano.

Iniciativas anteriores nesse sentido fracassaram, e essa também poderá não levar a nenhum lugar. Mas a guerra no Afeganistão acabará certamente num fórum como esse e não no campo de batalha. Conversar com o Taleban é algo que muitos americanos têm dificuldade de aceitar. Dick Cheney falou por muitos quando disse: "Não negociaremos com o demônio; vamos derrotá-lo". Mas, afirma Jonathan Powell, ex-chefe de gabinete de Tony Blair, ele está totalmente equivocado.

Em um novo livro, intitulado Terrorists at the Table: Why Negotiating is the Only Way to Peace (Terroristas à mesa: Porque negociar é o único meio para a paz, em tradução livre), Powell afirma enfaticamente que, de uma perspectiva histórica, conflitos como o do Afeganistão acabaram somente por meio de negociações e não pela vitória militar.

Powell não é um pacifista, foi um arquiteto do apoio da Grã-Bretanha às guerras no Afeganistão e no Iraque. Tampouco é favorável ao terrorismo. Seu pai, um militar, foi ferido pelo Exército Republicano Irlandês (IRA). Seu irmão ficou na lista dos ameaçados de morte pelo grupo durante oito anos.

Quando foi apresentado a Gerry Adams, do Sinn Fein, Powell se recusou a apertar sua mão. Mas nos dez anos durante os quais foi o assessor mais importante de Blair, passou a admitir que o problema do terrorismo não pode ser resolvido exclusivamente ou em grande parte por meios militares.

Ele cita Hugh Orde, o ex-comandante da polícia da Irlanda do Norte, que afirma com propriedade: "Não há nenhum exemplo que eu conheça em que o terrorismo tenha sido eliminado pela polícia" ou pelo uso da força.

Os governos rejeitaram falar com terroristas. O que é compreensível porque veem nesses grupos bandos de bárbaros, cujo objetivo é legitimar a brutalidade, e estão convencidos de que a força militar pode ao menos enfraquecê-los seriamente.

Mas, destaca Powell, a maioria dos governos acaba combatendo os terroristas. O governo britânico considerava o movimento dos Mau Mau do Quênia uma "conspiração que tinha como base a perversão total do espírito humano" - seres "sub humanos" que "só poderiam se redimir com a morte".

Por fim, falou com eles. O mesmo método foi usado com o IRA, com os separatistas bascos, o Congresso Nacional Africano e as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc).

Israel até negociou com o Hamas sobre a troca de prisioneiros. "Não ligo para a hipocrisia dos governos quando se trata de conversar com os terroristas", escreve Powell. "Mas me importo com o fato de que parece que nunca aprendemos com as experiências passadas, frequentemente com consequências devastadoras".

A ideia central da afirmação de Powell é muito simples: o terrorismo é um reflexo de um problema político subjacente que quase sempre precisa ser tratado em termos políticos.

No Afeganistão, ele reflete a realidade de que uma parte da população paquistanesa - cerca de 50% - acredita que seus interesses não são representados pelo atual governo em Cabul.

O fato de que o Taleban continua uma força que é preciso reconhecer - depois de quase 14 anos de intervenção militar americana, com o envio de reforços que triplicaram as forças americanas em campo, várias eleições e US$ 1 trilhão de gastos para fazer frente a ela - sugere que dispõe de um apoio significativo junto à população.

As negociações desta semana talvez não levem a nenhuma parte. São muitos os partidos e as facções em cada um deles. Mas uma das lições apontadas por Powell em seu livro é que frequentemente essas conversações começam tarde demais, pois os governos acreditam que um último esforço militar colocará os terroristas na defensiva, embora existam "poucas evidências empíricas que respaldem esse argumento".

Ele lembra de que uma parte crucial dos reforços do general David Petraeus no Iraque tinha como tarefa entrar em contato com militantes sunitas que haviam combatido contra as forças americanas, atender a suas queixas e, na realidade, suborná-los para que deixassem de ser inimigos e se tornassem amigos. Ele observa que Petraeus admitiu que os EUA esperaram demais para conversar com pessoas "que tinham sangue americano nas mãos".

Evidentemente, nada disso se aplicaria ao Estado Islâmico, ou se aplicaria? Na realidade, Powell é corajoso o bastante para sugerir que poderia se aplicar. Afinal, esse é um grupo particularmente brutal e assassino, mas é bem-sucedido, em grande parte porque explorou os temores e a revolta dos sunitas, menosprezados no Iraque e na Síria.

Essa é uma queixa política que só pode ser atendida em termos políticos. Falar com os terroristas não significa ceder às suas reivindicações, afirma Powell. Mas como os governos estão apavorados com a imagem e a percepção de tudo isso, costumam adiar, hesitar, cometer erros, e prolongam conflitos que poderiam ter resolvido muito antes e sem tanto derramamento de sangue. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

*Fareed Zakaria é colunista

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