Ação contra a guerra do Brasil é recebida com silêncio

A decisão do governo brasileiro de alinhar-se de forma clara à França, Rússia e Alemanha contra a solução militar defendida pelos Estados Unidos para desarmar o Iraque foi recebida com silêncio pela administração Bush. Um porta-voz disse que "diante de tudo o que está acontecendo, as pessoas não estão focalizadas no Brasil".De acordo com o funcionário, a diplomacia americana se empenhará, nos próximos dias, para convencer a opinião pública dos países representados no Conselho de Segurança da ONU, onde os EUA esperam conseguir a aprovação de uma segunda resolução, autorizando o uso da força contra o regime de Saddam Hussein. O México e o Chile são os países latino-americanos representados atualmente no Conselho.Uma alta fonte do governo americano disse hoje à AE que "não existe expectativa na administração Bush de que o Brasil venha a apoiar decisões unilaterais e há compreensão pela preferência do País pelos processos multilaterais de decisão, que é tradicional na política externa brasileira; isso também significa que nós esperamos que o governo brasileiro também insista em que o Iraque cumpra as resoluções da ONU".O funcionário advertiu, no entanto, que a idéia de convocar uma reunião de chanceleres sul-americanos para fazer uma frente contra a guerra, que o governo Lula estaria considerando, segundo relatos de imprensa, provocaria forte reação. "Ações de mobilização internacional contra a posição dos EUA pelo governo brasileiro seriam muito mal recebidas em Washington", disse a fonte.A postura brasileira na confrontação entre os EUA e o Iraque provavelmente teria ganho maior visibilidade em Washington se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tivesse telefonado para o presidente George W. Bush para defender a saída pacífica. A idéia chegou a ser anunciada publicamente na última sexta-feira por assessores do Planalto mas acabou abandonada, depois que assessores presidenciais se deram conta de que Bush poderia transformar a conversa com Lula numa cobrança de posição do Brasil.A ação mais pública do Itamaraty nesta semana, contra a posição dos EUA, provocou reações variadas entre os especialistas em relações regionais em Washington. O presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, disse que acha "difícil justificar o envolvimento do Brasil na questão do Iraque, a não ser como uma mensagem potencial de que o Brasil quer ser um ator global, e como trampolim para uma eventual cadeira permanente no Conselho de Segurança". Mas Hakim adverte que essa estratégia contém "um enorme perigo de alienar os Estados Unidos sem que o Brasil tenha muita influência no desfecho da questão do Iraque"."Eu aconselharia uma abordagem mais prudente, um perfil mais baixo, de simplesmente deixar claro que o Brasil apoiará a decisão que o Conselho de Segurança tomar", disse Hakim. "Preocupa-me que o Brasil esteja pondo demasiada fé na França e que a França, no final, apóie os EUA, forçando o Brasil, a Alemanha e outros a mudar de posição ou arcar sozinhos com as conseqüências de sua oposição aos Estados Unidos".Comentaristas americanos e europeus têm afirmado que não afastam a possibilidade de os Estados Unidos e a França acabarem do mesmo lado no Conselho de Segurança, depois de uma intensa discussão. Foi o que aconteceu no caso da resolução 1441. Depois de sete semanas de negociações e debates, durante os quais a França liderou a resistência à posição dos EUA, a resolução foi aprovada por unanimidade.O professor Riordan Roett, da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, não compartilha da preocupação de Hakim. "O Brasil está se unindo ao que parece ser uma maioria de países no Conselho de Segurança. A posição brasileira não é tão dura quanto a da França e da Alemanha e parece mais próxima à da Rússia".Segundo Roett, "a Casa Branca não apreciará a decisão brasileira, mas não vejo nenhuma razão para acreditar que haverá, por isso, uma deterioração da relação bilateral?.Arturo Valenzuela, professor da Universidade de Georgetown e ex-assessor do Conselho de Segurança para a América Latina no governo Clinton faz uma avaliação intermediária, chamando atenção para o risco que o governo brasileiro corre de desvalorizar seu capital diplomático internacional ao envolver-se num debate no qual sua opinião tem escassa influência e cujo resultado independerá da vontade de Brasília. "Diante do fato de os principais formuladores da política americana estarem empenhados em obter o apoio de aliados-chave e de potências importantes, é provável que a posição do Brasil não será muito notada", disse ele. "Mas ela complicará os esforços daqueles, dentro da administração, que acreditam que é do interesse dos EUA forjar relações mais próximas com Brasília", disse Valenzuela. "No final, ninguém ouvirá o que o Brasil tem a dizer e o País pode minar o tipo de posição de influência que pode ter em questões-chave que são muito mais importantes do que o Iraque para seus interesses vitais".

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