Ação contra humorista eleva medo de censura na Venezuela

O diretor de redação do jornal venezuelano Tal Cual, Teodoro Petkoff, classificou uma multa imposta ao periódico pela Justiça do país como "repressiva" e que "não só busca calar um diário crítico e independente, mas que marca a pauta do será visto na Venezuela em matéria de liberdade de expressão". As palavras são a mais recente reação do intelectual e oposicionista ao governo de Hugo Chávez a uma sentença que condenou a editora do jornal a pagar mais de US$ 18 mil pela publicação de um editorial humorístico, em 2005, que usou o nome da filha do presidente. Escrito pelo comediante Laureano Márquez, o texto foi considerado pela Justiça ofensivo à "honra, reputação e vida privada" de Rosines Chávez Rodrigues, de 9 anos.Em coletiva nesta terça-feira, Petkoff disse que a medida é parte de uma estratégia do governo para limitar a liberdade de expressão dos meios impressos.Citado pelo jornal venezuelano El Nacional, Petkoff foi duro em sua colocação: "Isso é parte de um processo do governo para reduzir os espaços de expressão, como o que estão fazendo com o segundo maior canal (de televisão) do país", disse, em referência ao cancelamento da concessão a uma rede de TV venezuelana. "Trata-se de uma indução à autocensura."O autor do artigo, por sua vez, disse compartilhar da visão do diretor do jornal. Para Marquez, seu texto foi redigido de forma amável e não se trata de uma ofensa. A polêmica começou durante uma transmissão do programa "Alô presidente", protagonizado por Chávez. À época, o mandatário contou que Rosines havia comentado que o cavalo que se encontra no brasão que aparece na bandeira venezuelana parecia estranho olhando para a esquerda enquanto corria para a direita. E emendou: "Eu deixo apenas essa consideração: aquele cavalo poderia galopar para a esquerda."Em algumas semanas, deputados partidários de Chávez pressionaram por uma reforma para mudar o desenho do brasão. "Ele considerou mudar o brasão por causa de uma sugestão de sua filha", disse Marquez em entrevista à Associated Press. "Eu simplesmente escrevi uma carta a Rosines pedindo a ela que sugerisse outra série de mudanças", explicou o comediante. De acordo com a justificativa dos membros do Conselho Nacional para a Proteção da Criança e do Adolescente, a ação contra Marquez e a editora Mosca Analfabeta foi imposta para proteger as crianças de difamações de cunho político.Para Petkoff, entretanto, nem a justiça sabe ao certo o motivo da decisão. Ele destacou que a Procuradora Geral da República pediu uma explicação mais detalhada da sentença à juíza da vara de Proteção do Menor e do Adolescente, Holanda Dan. Durante sua coletiva, o diretor do Tal Cual anunciou também a abertura de contas bancárias para que os interessados possam contribuir com o pagamento da multa. Segundo ele, a atitude irá apoiar uma causa "venezuelanista".

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