Geer Vanden Wijngaert/Bloomberg
Geer Vanden Wijngaert/Bloomberg

Ação da União Europeia na Venezuela irrita Washington às vésperas da eleição

Diplomatas e funcionários de carreira do governo americano se irritam com papel cada vez mais assertivo do bloco

Anthony Faiola, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 05h00

A Guerra Fria continua viva na Venezuela socialista, onde, desde que Hugo Chávez começou a cortejar o Kremlin, nos anos 2000, os Estados Unidos e a Rússia se engajaram no que era em grande parte um jogo de influência de mão dupla. Mas outro jogador entrou na briga em grande estilo: a União Europeia.

Diplomatas e funcionários de carreira do governo dos EUA estão se irritando com o papel cada vez mais assertivo da UE e seu chefe da política externa, Josep Borrell, no país. O estopim foi a nova jogada de Borrell, um socialista espanhol, para inserir a UE no debate da Venezuela: uma missão oficial de monitoramento enviada a Caracas para observar as eleições locais e regionais em 21 de novembro. Os críticos temem que isso possa dar legitimidade internacional a um exercício eleitoral que eles consideram fraudulento.

As eleições acontecem em um momento em que o movimento pró-democracia em um Estado autoritário e rico em petróleo corre o risco de ruir. O apoio interno a Juan Guaidó, o líder da oposição reconhecido pelos Estados Unidos e por várias nações como o legítimo líder interino da Venezuela no início de 2019, está se desfazendo devido às lutas internas, bem como à sua falta de progresso. Três dos quatro principais partidos da oposição agora se opõem aos esforços dos EUA para apoiar Guaidó por mais um ano.

Enquanto os venezuelanos se preparam para eleger governadores e prefeitos, entretanto, o presidente Nicolás Maduro - o sucessor escolhido a dedo por Chávez - superou a oposição, semeando confusão ao apresentar candidatos de "oposição amigável" em algumas disputas, enquanto conseguia colocar seus inimigos uns contra os outros.

A Rússia emprestou bilhões de dólares à Venezuela, tornou-se seu maior vendedor de armas e investiu pesadamente em todo o seu importante setor de petróleo. Em contraste, os Estados Unidos, no governo Trump, promoveram extrema pressão sobre Maduro - incluindo duras sanções e ameaças para usar a força militar para a mudança de regime. Borrell, que uma vez comparou a política de Trump na Venezuela a “cowboys do Velho Oeste”, vê claramente uma terceira via: o engajamento. Ele descreveu a missão europeia à Venezuela como “um caminho para eleições críveis, inclusivas e transparentes”.

Maduro é acusado de ter fraudado as eleições presidenciais de 2018, enquanto gradualmente conduzia o país rumo ao autoritarismo total. Os observadores da UE, Borrell argumentou, ajudariam a dar uma chance justa aos candidatos da oposição concorrendo em sua primeira eleição em três anos, ao mesmo tempo que forneceriam oxigênio para o movimento pró-democracia do país.

O governo Biden, que mudou o tom, mas pouco da substância da política de Trump, negou haver indisposição entre a Europa e os Estados Unidos na questão venezuelana. Mas, em particular, diplomatas dos EUA, bem como alguns membros da oposição venezuelana, disseram ao Washington Post temer que a missão da União Europeia  possa acabar sendo um presente para Maduro. A preparação para a votação foi tudo menos democrática. As eleições estão ocorrendo depois que os tribunais pró-Maduro removeram à força os chefes dos principais partidos da oposição e enquanto centenas de presos políticos permanecem na prisão e os candidatos da oposição têm acesso limitado à mídia.

Essas vantagens para Maduro podem levar a um dia de eleição relativamente limpo para as câmeras - e para os observadores da UE - mesmo que isso signifique conceder um ou dois feudos a membros menos radicais da oposição.

“Minha preocupação é que, no dia da eleição, os europeus dirão: 'Bem, parece que foi tudo muito bem', quando todos nós sabemos que o verdadeiro problema é a fraude estar embutida antes da eleição”, disse um alto funcionário dos EUA na condição de anonimato.

Na prática, o efeito de missões da UE para fiscalizar eleições foi incerto. O Carter Center, com sede nos Estados Unidos, também vai enviar uma pequena equipe de especialistas para a votação - muito pequena para avaliar tecnicamente as cédulas. Em vez disso, a equipe avaliará a transparência e o ambiente da campanha. Se a UE e o Carter Center denunciarem abusos, poderia de fato prejudicar Maduro no momento em que ele está tentando aproveitar os ganhos deste momento de reconstrução.

No entanto, a própria equipe de Borrell, enviada a Caracas para avaliar as condições para uma missão, sugeriu que Maduro pode estar jogando contra a UE. O Financial Times relatou no mês passado que membros da equipe de avaliação concluíram que "o desdobramento de uma missão provavelmente terá um impacto adverso na reputação e credibilidade da UE e indiretamente legitimará o processo eleitoral da Venezuela”. A equipe acrescentou que “as condições mínimas para observação eleitoral não estão sendo atendidas neste momento”.

Tudo isso importa porque Maduro e Guaidó (e a oposição em larga escala) estão travando uma batalha global por legitimidade e reconhecimento. Desde que a reivindicação de Guaidó à presidência foi reconhecida por Washington e outras nações, há quase três anos, a oposição tem procurado isolar Maduro diplomaticamente. 

Lentamente, mas com segurança, porém, Maduro está saindo da geladeira diplomática - ganhando novos aliados, incluindo o recém-eleito presidente de esquerda no Peru, Pedro Castillo. Em janeiro, a União Europeia retirou o reconhecimento de Guaidó como líder interino, descrevendo-o simplesmente como um “interlocutor privilegiado”. Além da Rússia, China, Cuba, mais recentemente a Turquia e o Irã também serviram de salva-vidas para Maduro.

“Maduro está jogando um jogo de legitimidade e estamos preocupados sobre como os observadores da UE poderiam ser usados pela ditadura para esse fim”, disse Leopoldo López, mentor político de Guaidó.

O envolvimento crescente da UE na Venezuela já havia irritado os funcionários do governo Trump. Elliott Abrams, enviado especial de Trump na Venezuela, me disse em uma conversa recente que sentiu que a decisão de Bruxelas no ano passado de cortejar Henrique Capriles - um líder da oposição rival e ex-candidato à presidência - foi fundamental para prejudicar o movimento pró-democracia da Venezuela. Capriles se tornou um ator-chave nas negociações com o governo de Maduro e com a União Europeia, mesmo quando rompeu publicamente com Guaidó. “Foi um momento muito prejudicial quando a unidade da oposição realmente acabou”, disse Abrams.

A posição mais matizada de Borrell na Venezuela contrasta fortemente com sua posição na Nicarágua. Ele criticou o presidente Daniel Ortega por construir “uma das piores ditaduras do mundo” e realizar eleições “falsas” no domingo, depois que sete dos seus principais adversários da oposição foram presos.

Dado o histórico das missões da UE, é improvável que seus observadores simplesmente abençoem o voto na Venezuela. A partir de 2017, a UE já enviou 120 dessas missões em 60 países - muitos dos quais renderam condenações severas. Em 2016, a UE atiçou a ira do presidente do Gabão, Ali Bongo Ondimba, quando questionou a validade das eleições presidenciais. Em 2019, em Moçambique, os seus observadores denunciaram condições injustas, enchimento falso de urnas, voto múltiplo, invalidação intencional de votos da oposição, bem como violência, a favor do presidente em exercício Filipe Nyusi. 

O escritório de Borrell não respondeu a um pedido de comentário. No mês passado, porém, ele defendeu a missão na Venezuela. “As eleições na Venezuela não são como as eleições na Suíça. O regime venezuelano é o que é, como bem sabemos ”, disse Borrell, segundo a agência de notícias EFE. “Queria que alguém me explicasse como a oposição e o processo eleitoral seriam feridos com essa missão, e peço que relatem se as condições ideais de observação não forem cumpridas”, disse ele.

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