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Ação de jihadistas na Síria dá fôlego a governo iraquiano e regime de Assad

Temor do Ocidente com relação a grupos sunitas reforça posição do Irã e aliados

Lourival Sant'Anna ,

13 de janeiro de 2014 | 09h17

Os conflitos no Iraque, na Síria e no Líbano ganharam complexidade e se entrelaçaram ainda mais nos últimos dias, com a escalada do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil) nas três frentes. Paradoxalmente, a ação desse grupo sunita radical beneficia os regimes da Síria e do Iraque, apoiados pelo Irã na sua disputa de poder com os sunitas.

O realinhamento que ele provoca lança os EUA em uma incômoda parceria com o Irã, ao tempo em que amplia seu distanciamento da Arábia Saudita, antes aliada da primeira hora.

Quando os EUA invadiram o Iraque, em 2003, o então presidente George W. Bush deixou claro que a Síria, pertencente a um "eixo do mal", seria a próxima. Diante disso, o presidente Bashar Assad patrocinou o envio de combatentes sírios e iraquianos para a jihad contra os americanos no país vizinho. Surgia a Al-Qaeda no Iraque (AQI).

O grupo foi usado também contra o primeiro-ministro Nuri al-Maliki, já que Assad era ligado a seu adversário, Ayad Allawi, oriundo, como ele, do partido pan-árabe Baath. Mas o regime iraniano, patrocinador de Maliki e de Assad, exigiu o desmantelamento do grupo, acossado também pelo movimento Despertar, uma parceria do Exército americano com os líderes tribais sunitas.

Enquanto Assad recebia US$ 8 bilhões de Maliki, com os quais comprou armas russas e pagou outras contas depois de torrar seus US$ 18 bilhões em reservas na guerra civil, mandava prender muitos membros da AQI e outros militantes islâmicos, temendo que se voltassem contra seu regime.

Mas, a partir de 2012, contam oposicionistas sírios ouvidos pelo Estado, Assad mudou de tática: soltou seus antigos aliados, em troca de adotarem agenda própria. Surgia o Isil. Seu líder, Abu Bakr Baghdadi, que, como o nome indica, provém da capital iraquiana, lançou-se na criação de um emirado islâmico no Triângulo Sunita, noroeste do Iraque, e no leste e norte da Síria.

Em alguns momentos, o Isil tem se aliado à Frente Al-Nusra, filiada à Al-Qaeda, testemunha o diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, Rami Abdurrahman. Mas em geral age de forma independente, combate os outros grupos rebeldes com muito mais frequência do que o Exército sírio e comete atrocidades contra a população. O líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, ordenou que o Isil deixasse a Síria para a Al-Nusra e se concentrasse no Iraque, já que a maioria de seus membros é iraquiana e a população rejeita o grupo. Mas Baghdadi não obedeceu.

Rival do Irã, e por extensão dos governos de Assad e de Maliki, a Arábia Saudita criou seus próprios grupos: a Frente Islâmica e o Exército Mujaheddin, que combatem o Isil lado a lado com os seculares do Exército Sírio Livre (ESL). A Al-Nusra, talvez apoiada pelo Catar, tenta mediar o conflito.

Eleições. No Iraque, as eleições do próximo 30 de abril "explicam, em parte, o que está acontecendo", analisa Max Boot, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, que acaba de voltar do país. O Exército iraquiano não impediu a entrada dos combatentes do Isil em Faluja e desmantelou acampamentos de manifestantes sunitas em Ramadi, provocando o acirramento do conflito na província de Anbar.

"Pareceram grandes erros táticos, mas agora ele pode silenciar os xiitas críticos e apresentar-se como o protetor da maioria."

Por outro lado, a proximidade das eleições inibe ação mais contundente. "O primeiro-ministro afirmou que, se quisesse, o Exército poderia retomar Faluja, mas o custo para a população civil seria muito alto", relata o embaixador do Brasil em Bagdá, Anuar Nahes. "Isso está também no cálculo da Al-Qaeda."

Já no Líbano, o último atentado a bomba no sul de Beirute, reduto do Hezbollah, que matou cinco pessoas, incluindo uma brasileira, no dia 2, foi reivindicado pelo Isil. "O Hezbollah os combate na Síria, então era lógico que eles viessem atacá-lo no Líbano", explica o libanês Fadi Ahmar, especialista em Síria na Universidade de Kaslik.

A escalada na violência sunita favorece o Irã no momento em que ele procura deixar a condição de pária internacional. Mas os especialistas não acreditam em parceria entre os sunitas do Isil e os xiitas iranianos.

"Os iranianos entendem a ideologia do Isil, fincada na austera doutrina wahabita", aponta Hilal Khashan, especialista em Síria da Universidade Americana de Beirute. "O Irã simplesmente está tirando vantagem da bizarra orientação político-religiosa deles para espalhar sua influência na região e convencer o Ocidente de que Teerã é um agente de estabilidade no Oriente Médio." Nada mau, considerando que o wahabismo é propagado pela Arábia Saudita, rival do Irã.

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