'Ação de Morsi atinge entulho autoritário da era Mubarak'

Para analista, presidente evita confronto direto com militares, mas demissões são golpe contra aparato que restou da ditadura

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2012 | 07h41

À frente de um governo que vem somando "fracassos", o presidente egípcio, Mohamed Morsi, viu-se obrigado a dar uma resposta dura ao incidente na Península do Sinai, diz Hani Sabra, especialista em Egito da agência Eurasia. Morsi, da Irmandade Muçulmana, vem evitando um embate com os generais, os donos do poder no Cairo há seis décadas. Mas, para Sabra, as demissões anunciadas pelo presidente após a crise no Sinai são um golpe contra o "Estado profundo" do Egito - o aparato de inteligência, que sobreviveu à queda do ditador Hosni Mubarak.

A seguir, trechos da entrevista por telefone ao Estado.

Por que Morsi decidiu adotar uma posição mais dura e demitir o ministro da Inteligência e o governador do Norte do Sinai?

Foram demissões "lógicas", pois houve um claro fracasso na segurança. O ministro da Inteligência, Murad Muwafi, chegou a ser citado na imprensa egípcia dizendo que "sabia" da possibilidade de um ataque. Do outro lado, o governador ficou marcado pela incompetência.

E como isso interfere na relação entre o presidente, que é da Irmandade Muçulmana, e os

militares?

A questão principal é a demissão do ministro da Inteligência. Desde a queda de Mubarak, ele era tido como um "protegido" de Omar Suleiman (chefe da espionagem e número 2 da ditadura, morto nos EUA no dia 19). Nesse sentido, a saída de Muwafi é um golpe contra o chamado "Estado profundo" no Egito - a rede de agências de inteligência, civis e militares, da era Mubarak. O ditador pode ter sido removido, mas a burocracia do Estado continua no mesmo lugar e Muwafi era tido como um representante desse setor. Confesso que nunca havia ouvido falar no novo ministro da Inteligência (Mohamed Shehata).

O fato de uma figura menos conhecida ter sido escolhida é relevante?

Sim, mas lembre-se que tampouco Suleiman e Muwafi tampouco eram conhecidos entre os egípcios até bem pouco tempo. Suleiman só começou a aparecer quando passou a ser cotado como possível sucessor de Mubarak. Até a queda do ditador, aposto que 99% dos egípcios nunca haviam escutado a voz dele. Ele não era uma figura conhecida, pois a inteligência sempre foi muito nebulosa.

Desde o início, Morsi evitou um confronto direto com os militares. Seria exagero dizer que, com essas demissões, o presidente está tentando agora impor sua autoridade sobre os generais?

Sim, seria um exagero. Morsi está sob forte pressão porque, até agora, sua presidência tem sido um fracasso. Não estou dizendo que seu governo fracassará, mas que, por enquanto, os resultados que tivemos foram desencorajadores. Houve casos de violência sectária em Giza e um tiroteio, na semana passada, no centro financeiro do Cairo - reforçando a imagem entre empresários de que o Egito não é seguro. Some-se a isso a nomeação de Hisham Kandil (tecnocrata pouco conhecido) ao cargo de primeiro-ministro e o fato de (os antigos aliados de Mubarak) terem ficado com os ministérios da Fazenda, Defesa e Relações Exteriores. Foram nomeações extremamente desapontadoras perante a opinião pública.

Como o episódio no Sinai entra nessa equação?

O presidente está "dormindo no volante" aos olhos de muitos no Egito. Para chacoalhar as coisas e, sobretudo, após ter sido criticado por não ir aos enterros das vítimas do ataque, Morsi decidiu agir. Foi arriscado demitir o ministro da Inteligência, não o governador. Resta saber como os militares reagirão.

Autoridades egípcias alegam que os acordos de 1979 com Israel contribuem com a "anarquia" no Sinai, pois limitam a presença dos militares na região. O Egito buscará rever o tratado?

Acho que sim e seria uma situação benéfica para todos. Publicamente, os egípcios diriam que mantiveram o acordo e "ampliaram sua soberania" sobre um território que é seu. Ao mesmo tempo, a portas fechadas, podem argumentar para os israelenses que isso ajudará a policiar uma área cada vez mais sem lei.

O elo da Irmandade com o Hamas causa temor nos militares?

Acho que isso é um "não assunto". O elo do Hamas com a Irmandade costuma ser exagerado. Há uma conexão histórica no plano dos ideais e na visão de mundo, mas não uma relação prática entre o comando da Irmandade e o grupo palestino.

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