Ação deu a diplomata popularidade em rede social e status de herói

Mais de 4 mil seguidores passaram a exaltar a 'coragem' de Saboia na página que ele mantém no Facebook

LA PAZ, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h05

Uma viagem de 22 horas garantiu ao diplomata Eduardo Saboia mais popularidade do que o senador Roger Pinto conseguiu reunir em 455 dias confinado. Em duas páginas de apoio no Facebook, o ex-encarregado de negócios da missão brasileira em La Paz reúne mais de 4 mil solidários a sua história, 100 a mais do que o boliviano na noite de sexta-feira.

Nas redes sociais, o carioca de 46 anos que alega ter decidido sozinho atravessar a Bolívia clandestinamente, transformou-se num símbolo - de inúmeras causas. Se a palavra "coragem" e suas variações é a que mais aparece nos sites que o apoiam, os xingamentos ao governo federal e incentivos a ele como "homem público" vêm em seguida.

Questionado pelo Estado sobre o uso de sua suposta insubordinação ao Itamaraty por grupos de diferentes interesses políticos, Saboia não respondeu até sexta-feira à noite. Durante a semana passada, entretanto, ele disse em várias entrevistas ter votado na presidente Dilma Rousseff, aparentemente numa tentativa de tirar a carga ideológica ligada à fuga - ele afirmou que seu objetivo era humanitário. "Não imaginei que teria esta repercussão", disse ao Estado, seis dias após a viagem.

Enquanto no Brasil têm predominado os afagos de internautas e analistas políticos - bem como da própria oposição - por ter afrontado uma orientação do governo federal, na Bolívia predominam os ataques. A ministra das Comunicações, Amanda Dávila, foi a mais explícita, ao dizer que a operação de fuga foi "algo organizado por algum grupo contrário ao governo de Dilma". Na quarta-feira, Evo Morales seguiu a mesma linha, afirmando que "há grupos interessados em criar desconfiança entre dois governos amigos".

No Facebook, a distância na popularidade virtual entre os dois companheiros de viagem que rezaram juntos ao pisar no Brasil, há oito dias, tende a aumentar. Pinto é senador pelo Estado amazônico de Pando, de 110 mil habitantes (a capital, Cobija, tem 70 mil). Uma região mais conhecida por fazer parte da chamada Meia-Lua opositora (formada também por Santa Cruz, Beni e Tarija) do que propriamente por sua relevância política. Fora de seu curral eleitoral, Pinto não tinha cacife que o colocasse no mesmo patamar político de Evo. A perseguição política, reconhecida pelo Itamaraty e atestada por especialistas que estudaram os processos aos quais foi submetido, deu-lhe espaço no noticiário. Abraçado pela oposição como exemplo do autoritarismo de Evo, Pinto continua um desconhecido nas grandes cidades. "Nem sei porque ele se escondeu tanto para fugir. Se o visse, não o entregaria", disse Carlos Suárez, morador de Cochabamba, ao Estado. Durante três dias, relatos semelhantes, em tom de indiferença, foram ouvidos mesmo de bolivianos que detestam Evo.

A causa dos "perseguidos" aparentemente não afeta a população boliviana, que critica Evo muito mais pelas dificuldades econômicas ou por governar especificamente para grupos indígenas e plantadores de coca. Para esta indiferença, contribui o fato de que não há consenso sobre o grau de perseguição imposto por Evo sobre os opositores. O analista político Marcelo Silva, da Universidad Mayor de San Andrés de La Paz, acredita que houve assédio apenas em 2008, após uma tentativa de golpe contra o presidente. "Hoje não se pode dizer que há perseguidos políticos", opina. Para o ex-vice-presidente Víctor Hugo Cardenas (1993-1997), "não existe um só opositor que não tenha processo, esteja preso ou exilado".

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