Ação em Benghazi está ligada à doutrina 'leve' de Obama

Cenário: Jackson Diehl / Washington Post

O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h07

Barack Obama passou seu primeiro mandato desfazendo o que lhe pareciam ser os excessos da política externa adotada pelos EUA depois do fim da Guerra Fria. Segundo o próprio presidente americano, seu esforço foi, em grande medida, bem-sucedido. Mas é bastante provável que ele passe os quatro anos do segundo mandato enfrentando as deficiências de sua abordagem.

Ao contrário do que os republicanos costumam dizer, Obama não fez os EUA baterem em retirada do mundo. Sua ideia foi perseguir os mesmos fins com outros meios. O presidente tentou preservar o papel dos EUA como "país indispensável", ao mesmo tempo que retirava as tropas estacionadas em zonas de guerra, cortava o orçamento do setor de defesa, diminuía a amplitude dos projetos de "construção nacional" e recusava-se a pôr o país na liderança de novas intervenções militares.

É injusto chamar isso de "liderança de retaguarda"? Então chamemos de doutrina da mão leve. É uma estratégia que supõe que pacientes esforços diplomáticos multilaterais são capazes de resolver problemas como o das ambições nucleares iranianas; que incursões com aviões não tripulados são tão eficientes para prevenir outro atentado terrorista em solo americano quanto a manutenção de tropas no Afeganistão; que crises como a da Síria podem ser deixadas nas mãos do Conselho de Segurança da ONU.

Nos últimos anos, a doutrina da mão leve teve efeitos suficientemente positivos para que Obama fizesse da política externa uma das estrelas de sua campanha à reeleição. Mas o atentado terrorista ao Consulado dos EUA em Benghazi, na Líbia, em 11 de setembro, deveria servir como um alerta vermelho para todos os que acreditam que o presidente inventou um novo e bem-sucedido modelo para que os EUA exerçam sua liderança mundial. Longe de uma anomalia, o episódio de Benghazi foi o subproduto tóxico da abordagem da mão leve - e muito provavelmente apenas o primeiro de seus efeitos bumerangue.

Por que o embaixador Christopher Stevens e três outros americanos foram assassinados por jihadistas líbios? A rodada preliminar de investigações oficiais talvez centre suas atenções em decisões tomadas pelo segundo escalão do Departamento de Estado, que privaram o consulado de condições de segurança adequadas, assim como no desempenho da CIA que, apesar do grande número de agentes mantidos na cidade, não foi capaz de detectar a iminência da ação extremista.

No limite, a tragédia acontecida na Líbia deriva da doutrina de Obama. Depois de ter se rendido à pressão de franceses e britânicos por uma intervenção na revolução líbia, Obama tirou os aviões americanos de ação o mais rápido que pôde; e, quando a guerra acabou, a Casa Branca se recusou a mandar tropas para o país. Aos pedidos de assistência na preservação da segurança feitos pelo frágil governo de transição, a Otan respondeu com um programa que consistia em oferecer treinamento a algumas pessoas na Jordânia. Mal elaborado, o programa estava fadado ao fracasso - que de fato se concretizou.

Um relatório recentemente elaborado pela Rand Corporation diz que "a abordagem mais leve fez da Líbia um teste para o modelo de construção nacional adotado depois das experiências do Iraque e do Afeganistão". Mas o resultado é que, um ano após a morte do ditador Muamar Kadafi, o policiamento na Líbia acha-se praticamente a cargo de milícias, sobre as quais o governo recém-eleito exerce pouca autoridade. E não se pode esperar, numa situação assim, que as autoridades possam combater a presença crescente de forças jihadistas no interior e nos arredores de Benghazi. O governo Obama será capaz de dotar a Líbia de um sistema de segurança interna, como fez no Iraque e no Afeganistão, sem abandonar a estratégia da mão leve? Não parece provável.

A aposta de Obama e de seus auxiliares talvez seja a de que será possível controlar a ameaça jihadista no Norte da África do mesmo modo que a Al-Qaeda foi enfrentada na Península Arábica: com incursões de aviões não tripulados e com o treinamento de forças especiais locais. Mas a primeira perna dessa estratégia também dá sinais de esgotamento. A oposição aos ataques com aviões não tripulados é cada vez maior, tanto internamente como entre os aliados dos EUA - isso para não falar dos países onde os ataques são feitos.

Um artigo escrito por Robert Chesney, da Universidade do Texas, observa que, na eventualidade de que esses ataques comecem a atingir países do Norte da África e grupos não diretamente ligados à liderança original da Al-Qaeda, as dúvidas quanto a sua justificativa legal, tanto sob a legislação americana como no âmbito do Direito Internacional, "se tornarão cada vez mais aparentes e problemáticas". E isso não leva em conta as sequelas políticas: líderes líbios dizem que incursões de aviões não tripulados acabarão com a boa vontade que os EUA conquistaram com seu auxílio aos revolucionários.

No melhor dos cenários, a Líbia será uma dor de cabeça constante, ainda que não desesperadora, para Obama em seu segundo mandato. O efeito imprevisto mais negativo de suas políticas virá da Síria. O que começou como uma pacífica revolta de massas contra mais um ditador árabe, transformou-se, na ausência da liderança americana, no turbilhão de uma guerra sectária, em que Al-Qaeda e aliados jihadistas têm tido papel cada vez mais importante. A estratégia da mão leve adotada por Obama contribuiu muito para esse estado de coisas. Sem uma mudança na política externa dos EUA, a Síria se tornará, como a Bósnia foi para Bill Clinton, ou o Iraque para George W. Bush, um "problema dos infernos". / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.