Ação paquistanesa ajuda Washington em diálogo com milícia

O poderoso Exército do Paquistão exerce papel fundamental para convencer os rebeldes do Taleban afegão a conversar com os EUA. É o que afirmam autoridades paquistanesas e americanas. Trata-se de uma mudança de posição de Washington, que sempre viu os militares paquistaneses como um obstáculo à paz na região. O papel do Paquistão na guerra tem sido ambíguo. É um aliado dos EUA, mas tem uma longa história de apoio ao Taleban - que age como seu representante no Afeganistão e está a seu lado na sua disputa mais ampla com a Índia.

BASTIDORES: Frank Jack Daniels e Mehreen Zahra-MaliK / Reuters, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2013 | 02h21

Para autoridades ocidentais, o Paquistão agora deve ter considerado que é do seu interesse colaborar com uma paz que poderia levar a um governo mais amistoso em Cabul, capaz de estabilizar o Afeganistão e impedir que o caos se estenda através das fronteiras.

Vários líderes civis e militares do Paquistão disseram à Reuters que ajudaram a convencer os "comandantes taleban envolvidos" a manter conversações com americanos e afegãos.

"Não teria sido possível sem nossa facilitação convencer o Taleban de que a reunião é para o bem do Afeganistão e também persuadir o outro lado de que é isso que o Taleban tem em mente", disse um oficial do alto escalão do Exército.

O Paquistão tem um governo civil, mas os militares dirigiram o país durante mais da metade dos seus 66 anos de independência e ainda hoje controla grandes setores da política paquistanesa, incluindo as relações com países vizinhos.

Uma reunião entre o secretário de Estado americano, John Kerry, o presidente afegão, Hamid Karzai, e o general paquistanês Ashfaq Kayani, em abril, em Bruxelas, foi um passo decisivo na organização das conversações, disse um militar da reserva paquistanês. "A chave foi a reunião trilateral em Bruxelas", afirmou ele.

"O Paquistão contribuiu para a participação dos líderes taleban em diversas reuniões secretas na Europa nos últimos meses", disse o porta-voz da chancelaria paquistanesa, Aizaz Chaudhry.

Com a redução das tropas no Afeganistão, as autoridades americanas abandonaram suas demandas para que o Paquistão investisse duramente contra os refúgios taleban e, numa direção diferente, pediram a ajuda dos paquistaneses para promover o diálogo com a milícia.

Militares de Islamabad afirmam desejar um acordo no Afeganistão para evitar o risco de a instabilidade se propagar para o território paquistanês após o término da missão de combate estrangeira no país, em 2014.

No entanto, o governo de Karzai continua profundamente receoso, temendo que o Exército paquistanês mantenha o apoio aos militantes do Taleban.

As autoridades afegãs também se preocupam que o Paquistão use da sua influência sobre o Taleban para determinar algum acordo futuro sobre quem assumirá o poder em Cabul.

O Paquistão observa com cautela as estreitas relações entre o governo de Karzai e a Índia.

Em particular, muitas autoridades paquistanesas admitem que o apoio do país ao Taleban no passado teve um custo insuportável em termos humanos e econômicos. Tropas paquistanesas, agora, combatem insurgentes paquistaneses ligados ao Taleban, que querem substituir a democracia no país pela sharia, o estrito código penal islâmico. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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