Ação russa expõe fiasco do Ocidente

Em uma semana, Putin redesenha mapa político da região e reduz possibilidade de a Geórgia ingressar na Otan

Ian Traynor e Ian Black, The Guardian, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

A decisão do Kremlin, na terça-feira, de decretar um cessar-fogo após cinco dias de ataques contra a Geórgia deixou a Rússia dona da situação no litoral do Mar Negro e na bacia do Cáspio, ricos em petróleo. A vitória rápida e fácil expõe a atual incapacidade do Ocidente de pressionar diante da Rússia que renasce, apesar de vários anos de fortes investimentos políticos dos EUA na Geórgia. Na briga pela supremacia em uma região estratégica, o equilíbrio pende perigosamente para um lado. Pela primeira vez desde o colapso do comunismo, a Rússia mostrou com sucesso, e em plena impunidade, seu poder de fogo em outro país. "Esta não é a Rússia de 1993 ou 1994, quando estava terrivelmente enfraquecida", disse um representante da União Européia. "Os russos agora estão negociando de uma posição de força." As conseqüências da impensada jogada do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, de invadir a Ossétia do Sul, na semana passada, e a derrota total dos georgianos pelas mãos de Vladimir Putin serão sentidas em várias direções. Em menos de uma semana, o premiê russo redesenhou o mapa político da região disputada entre Rússia, Turquia e Irã. "Não estamos numa boa situação", disse um ex-funcionário do Pentágono que durante muito tempo se dedicou à Geórgia. "Trabalhamos na questão georgiana por quatro anos, e fracassamos. Todo mundo é culpado. Mas Putin está jogando suas cartas de modo brilhante. Ele sabe exatamente o que está fazendo e as conseqüências são todas negativas." Enquanto a Rússia se gaba, Saakashvili, de 40 anos, lutará para continuar sendo um dos mais jovens presidentes do mundo. Por outro lado, os europeus já estão divididos e vulneráveis às acusações de terem mostrado indecisão e impotência. O racha da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a respeito da Geórgia e da Ucrânia deverá aumentar. A política americana na região sofreu um grave revés e a política energética do Ocidente é estranha. LINHA VERMELHA"Esta foi uma guerra por procuração, não pela Ossétia do Sul, mas porque Moscou resolver traçar uma linha vermelha para o Ocidente", disse Alexander Rahr, especialista em Rússia do Conselho para Relações Exteriores da Alemanha e biógrafo de Putin. "Os russos marcharam Geórgia adentro para desafiar o Ocidente. E o Ocidente ficou impotente. Estamos tratando com uma nova Rússia."Após o pedido de cessar-fogo do presidente russo, Dmitri Medvedev, a prioridade é uma trégua propriamente dita, que terá de ser acertada, depois aplicada e monitorada, ou seja, tudo é muito complicado e dá ampla margem para novas confusões, interrupções e derramamento de sangue. Moscou está ditando as condições. Segundo representantes europeus, ouvidos sobre as conversações de terça-feira em Moscou com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, os russos insistem no fim do acordo pelo qual, há 15 anos, as tropas georgianas fazem parte das forças de paz na separatista Ossétia do Sul e exigem que Saakashvili assine um compromisso rejeitando o uso de forças armadas contra as províncias da Abkházia e Ossétia do Sul, pró-Rússia.Nos últimos meses, Saakashvili recusou-se repetidas vezes a assumir o compromisso. "A Rússia aparentemente tem todas as cartas", disse outro representante do bloco europeu. "Os soldados russos estão na Ossétia do Sul e na Abkházia há 15 anos. O resultado das negociações provavelmente será o fortalecimento da presença russa em ambos os enclaves."O resultado fere profundamente o presidente georgiano, talvez fatalmente. Moscou já lançou uma propaganda política que pinta Saakashvili como um criminoso de guerra e usa analogias da Guerra dos Bálcãs para acusá-lo de "genocídio". Moscou quer livrar-se dele. O assassinato moral desse personagem e as farsas dos serviços secretos aumentarão as dúvidas a respeito de Saakashvili no país e no exterior, na esperança russa de que o eleitorado do presidente georgiano se volte contra ele, mesmo que ainda não haja um sucessor óbvio.Saakashvili tem desfrutado de um forte apoio dos americanos. "Ele precisa ser protegido a todo custo", disse o ex-funcionário do Pentágono. Mas muitos governos europeus mostram-se pouco preocupados, por considerá-lo "o pior inimigo de si mesmo", e esperam que Barack Obama se afaste do presidente georgiano.O PREÇO DA VITÓRIASe por um lado o Kremlin está comemorando uma aparente situação de vitória total, grande parte do mundo está apavorada pelo fato de a Rússia ter invadido um vizinho pequeno e indefeso. Como reagirá o Ocidente? Houve conversações sobre a possibilidade de retirar a Rússia do G-8. E alguns países pediram à União Européia que congele as negociações com Moscou sobre um novo pacto de parceria de longo prazo. Mas, com um excesso de petrodólares e controlando as válvulas da energia que aquece a Europa, o Kremlin parece menosprezar uma possível vingança européia. As relações entre a Rússia e o Ocidente já estão comprometidas e se agravarão mais, mas é improvável que haja penalidades concretas. Os russos vêem o teste do Cáucaso como um jogo de soma zero, e eles ganharam. Isso significa prejuízo exclusivo para o Ocidente. O objetivo fundamental para Putin era desestabilizar a Geórgia para prejudicar sua intenção de ingressar na Otan. Talvez tenha sido bem-sucedido. O presidente dos EUA, George W. Bush, já havia tentado incluir a Geórgia na aliança militar em abril, durante uma reunião de cúpula da Otan. Bush, porém, foi derrotado por Angela Merkel, da Alemanha, e Nicolas Sarkozy, da França. Agora, dificilmente conseguirá convencê-los

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