AFP PHOTO / HO / SANA
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Ação russa na Síria abate, mas não derrota oposição

Grupos que combatem presidente Bashar Assad pedem mais recursos a aliados externos como EUA e sauditas

The Economist

11 Outubro 2015 | 03h00

Uma semana depois de entrar com estardalhaço na guerra síria, lançando no dia 30 uma série de ataques aéreos contra as forças que lutam contra o presidente Bashar Assad, a Rússia ampliou seu envolvimento. No dia 7, mísseis de cruzeiro, disparados de navios russos no Mar Cáspio, a centenas de quilômetros da Síria, atingiram as forças de oposição ao regime. 

A Rússia diz que tanto os mísseis, como os ataques aéreos fazem parte de uma campanha contra o “terrorismo”, muito embora tenham sido quase exclusivamente dirigidos não contra o Estado Islâmico (EI), mas contra grupos oposicionistas - incluindo alguns apoiados pelos Estados Unidos -, que controlam áreas mais próximas do território ainda sob o domínio de Assad.

Na última semana, apoiando ofensivas terrestres conduzidas pelo regime sírio, os aviões russos fizeram repetidos ataques aos grupos rebeldes que controlam a província de Idlib, no noroeste do país, e bolsões em torno da cidade de Homs, em alguns casos com uso indiscriminado de bombas de fragmentação.

Disputa. Os rebeldes consideram a intervenção russa uma segunda “ocupação”, que se acrescenta à já conduzida pelo Irã, outro aliado importante de Assad, diz Abu Amin, da pequena milícia Thuwar al-Sham. Não dá para saber se isso é prenúncio de problemas sérios para a oposição armada. Tudo depende de dois fatores ainda incógnitos: quais são as intenções dos aliados de Assad, Irã e Rússia, e qual será a reação dos países que apoiam a oposição, em especial, Estados Unidos, Arábia Saudita, Catar e Turquia.

Por si só, os ataques aéreos russos não vão derrotar as forças rebeldes, que, segundo o instituto de pesquisas Centro Carter, são formadas por nada menos do que 7 mil diferentes grupos. As bombas farão com que um número maior de sírios deixe o país, mas não serão suficientes para que Assad e seus aliados recuperem e conservem território. Antes da intervenção russa, a oposição nunca estivera em situação tão boa.

Nos últimos meses, as mais diversas facções rebeldes (com exceção do EI) - desde grupos que não são movidos por nenhuma ideologia até a Frente al-Nusra, que é o braço da Al-Qaeda na Síria - haviam conseguido superar as divergências e coordenar suas ações militares. Em março, o Jaysh al-Fatah (Exército da Conquista), uma coalizão de grupos rebeldes do norte do país, que inclui a Frente Al-Nusra e o salafista Ahrar al-Sham, havia tomado a cidade de Idlib. Ao sul de Damasco, a Frente do Sul, apoiada por Jordânia e EUA, é cada vez mais poderosa.

Escalada. As dificuldades dos rebeldes serão muito maiores se a Rússia enviar tropas para a Síria. Na segunda-feira, o presidente da comissão parlamentar de Defesa da Rússia disse que “voluntários” russos que há não muito tempo lutavam no leste da Ucrânia talvez dessem as caras na Síria; posteriormente, o próprio parlamentar e o Kremlin desmentiram a notícia. 

Mesmo sem a presença dos russos em terra, no entanto, circulam informações de que o Irã estaria despachando mais milícias xiitas para a Síria, sob a liderança de seus próprios comandantes. Há bastante tempo, o Hezbollah, grupo libanês apoiado pelos iranianos, luta ao lado das tropas de Assad. O mesmo fazem outras milícias xiitas. Uma grande ofensiva terrestre, com apoio aéreo russo, parece cada vez mais provável - e é possível que já esteja até em andamento.

Os grupos rebeldes pedem insistentemente aos países que os apoiam o envio de armas melhores e em maior quantidade. “A mensagem que os russos mandaram é enfática: eles querem que o regime vença. Isso deve forçar o outro lado a ampliar sua participação no conflito”, diz Peter Harling, do centro de estudos e pesquisas International Crisis Group. 

Decepção. Até agora, porém, os aliados das forças de oposição não se manifestaram. A decisão está essencialmente nas mãos de Arábia Saudita, Catar e Turquia, já que os EUA perderam muita de sua influência no conflito. Embora a CIA tenha treinado e armado alguns rebeldes, ao custo de US$ 500 milhões, o programa foi um fiasco retumbante. Só quatro ou cinco dos homens treinados estão atualmente na Síria, participando de combates - número que mal dá para encher uma caminhonete. 

Há informações de que, depois da intervenção dos russos, Barack Obama teria autorizado o Pentágono a distribuir mais munição e algumas armas aos 30 mil soldados que o presidente americano espera ver avançando sobre Raqqa, capital do EI na Síria.

Mas os aliados dos americanos não contam muito com isso. Já se desencorajaram com a resposta tímida de Obama aos bombardeios russos. O fato de que 25 mil homens das tropas que os americanos propõem sejam curdos, e só 5 mil árabes, não é um sinal promissor para as perspectivas de retomar o território sunita na Síria. A falta de uma participação sunita convincente alimenta a instabilidade, tanto na Síria como no Iraque, e empurra mais sunitas para os braços do EI. 

Tentativas. Faz tempo que os países do Golfo querem colocar baterias de mísseis antiaéreos nas mãos da oposição a Assad, mas são contidos por Obama. Recentemente, porém, andaram se mostrando menos subservientes: foi o aumento do apoio aos rebeldes, a despeito das objeções dos americanos, que em grande medida viabilizou a conquista de Idlib.

É provável, portanto, que a Síria esteja ingressando em mais um período de intensificação do conflito que já dura quase cinco anos. Na segunda-feira, a Turquia denunciou a segunda violação de seu espaço aéreo por um avião russo em três dias. 

Muitas autoridades iraquianas disseram que veriam com bons olhos uma intervenção da Rússia contra o EI no país, levantando o fantasma de uma campanha russa em ainda maior escala. Os sírios, em particular a oposição armada, estão mais uma vez à mercê dos caprichos dos estrangeiros. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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