Achebe, a voz da África

O escritor nigeriano era conhecido por defender o que acreditava e lutou energicamente contra a corrupção

É ESCRITOR, FOTÓGRAFO, VICTOR, EHIKHAMENOR, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITOR, FOTÓGRAFO, VICTOR, EHIKHAMENOR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h09

Cresci embaixo da antiga pereira do meu avô, na aldeia de Uwessan, na Nigéria. As raízes da árvore eram poderosas e suas folhas nos protegiam do sol tropical quando jogávamos futebol. Os mais velhos também aproveitavam da sua sombra sob a qual tomavam vinho de palma e, à noite, sentavam para contar histórias de caçadas. Às vezes, trepávamos num galho mais baixo para colocar armadilhas e apanhar passarinhos. Quando um galho mais velho caía, ia para o fogo.

Mas o mais importante era que a árvore rendia um bom dinheiro ao meu avô, que vendia seus frutos a comerciantes vindos de longe.

Chinua Achebe, o escritor nigeriano morto na semana passada, foi uma valiosa fonte cultural para toda uma geração de nigerianos. Ele significou coisas diferentes para pessoas diferentes, mas, antes de tudo, foi um escritor que todos aprendemos a respeitar.

Fama. Fomos criados ouvindo as histórias de Achebe. Sua fama se espalhou por cidades e aldeias de toda a Nigéria, e até mesmo além das fronteiras. Eu o conheci quando tinha 10 anos através das páginas de Chike e o Rio, um livro de histórias infantis. Mais tarde, Achebe tornou-se uma leitura fundamental em cada fase da minha educação.

No curso secundário, sua obra prima, O Mundo Desmorona, era um texto recomendado.

Meus irmãos mais velhos leram o romance e me transmitiram a história e um exemplar bastante manuseado. Uma de minhas irmãs mais velhas me alertou que alguma partes do livro eram tão trágicas que me fariam chorar. Até então, eu nunca soubera que palavras escritas poderiam produzir tais emoções. Quando uma criança cresce numa aldeia como a minha, não são muitos os livros que têm personagens, ambientes ou uma fraseologia familiar como os de Achebe.

O seu uso das parábolas e dos provérbios fez com que eu me apaixonasse por sua escrita, pois dizia coisas que eu ouvia todos os dias na aldeia.

Na universidade, no departamento de língua e literatura inglesa, escrevemos longos ensaios sobre o escritor e sua obra. Durante quatro anos, quase todos nós lemos tanto as suas obras que tínhamos a impressão de conhecê-lo pessoalmente.

Finalmente pude conhecê-lo, anos mais tarde, em Nova York. Quando ele entrou na sala, todos congelamos fascinados. Ele não era um gigante fisicamente, mas tinha uma voz possante. Era a agulha delicada que costurava vestes andrajosas, a minúscula cauda do escorpião repleta de veneno. Respondeu a todas as perguntas com a precisão de um franco atirador. Falava delicadamente, mas foi um escritor "em cuja companhia as paredes da prisão desmoronavam", como disse Nelson Mandela.

Achebe foi um motivo de orgulho para muitos nigerianos, um ancião que podíamos apontar quando o mundo ria de nossas deficiências. Muitas vezes invocamos seu nome como o de um deus violento.

Defensor. Além do seu vigor literário, Achebe era conhecido por defender aquilo em que acreditava.

Quando os que a desconheciam, contavam a história africana para se vangloriar, ele se levantava como um leão e destruía o discurso dos caçadores com a verdade. Não só ele atacava os relatos mentirosos dos exploradores brancos sobre nossa história; mas preparou outros escritores para fazê-lo.

Com obras de ficção e de não ficção, ele nos ajudou a zombar do colonialismo. No final dos anos 60, esteve na linha de frente da Guerra de Biafra, e foi embaixador de uma república separatista de vida breve, quando sentiu a necessidade de apoiar seus companheiros da etnia igbo em sua luta frustrada pela independência.

Também lutou energicamente contra a corrupção, ensinando os nigerianos mais jovens a não ficarem esfomeados a ponto de vender o que nos pertence por direito. Sua alma e sua consciência não eram negociáveis.

Por duas vezes rejeitou honrarias nacionais da Nigéria, pois era uma dessas pessoas que acreditam que um ancião não deve comer sua refeição em cima de um monte de lixo malcheiroso.

Achebe era um rebelde gentil que se recusou a apertar as mãos necróticas estendidas dos líderes corruptos. Ele pertencia a uma antiga estirpe, um sábio de uma geração diferente que não tolerava a pilhagem deliberada dos cofres públicos da Nigéria.

Achebe teria adorado passar os anos do crepúsculo de sua existência entre seu próprio povo e não nos Estados Unidos. Com a degradação de uma nação da qual outrora se orgulhara pelos cleptocráticos governantes militares e civis, o ancião não teve mais um país onde viver. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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