Acidente lembra atentados de 2004

Desesperados, parentes reconhecem vítimas no mesmo necrotério improvisado usado após ataques aos trens de Madri

Rodrigo Cavalheiro, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2008 | 00h00

"Não é um atentado. Não é um atentado", insistiam ontem as autoridades espanholas. O dia de ontem se pareceu muito com o 11 de março de 2004, quando explosões em quatro trens deixaram 191 mortos em Madri. A partir das 15 horas, as mesmas ambulâncias amarelas cruzaram as avenidas. Os mesmos hospitais receberam os feridos. E, no final do dia, os mesmos furgões negros chegaram com os corpos mutilados ao necrotério improvisado em um pavilhão de feiras na capital espanhola. Pelo menos 153 pessoas morreram no maior acidente aéreo na Europa nos últimos dez anos.Os parentes dos passageiros começaram a chegar ao terminal 4 do Aeroporto de Barajas por volta das 15 horas. "Parente?", perguntavam os funcionários logo na entrada do aeroporto, tentando identificar entre centenas os que tinham o rosto marcado pelo choro. Se assentiam, ganhavam escolta imediata. Eram isolados de um grupo de cem jornalistas. Ao passar pelo corredor de câmeras alinhadas por um cordão de isolamento, alguns começavam a chorar, pois percebiam que, pelo número de pessoas mobilizadas, a maioria dos passageiros estava morta. Apenas 19 pessoas sobreviveram.PROTOCOLO 11-MOs feridos foram retirados do local pelas ambulâncias que seguiam o chamado "Protocolo 11-M" - uma série de regras definidas após os atentados à estação de trem de Atocha. Em meio ao ruído das sirenes, o homem que coordenava o acesso das mais de 60 ambulâncias ao local da queda, Luis Ferreras, desabafou: "Muitos dos socorristas nunca viram algo assim." Parte do avião havia sumido. "?Onde está o avião?? Foi o que perguntamos quando só vimos a cauda", disse um dos bombeiros que voltava do local da queda. "Vai ser uma longa noite", declarou o chefe da Cruz Vermelha, Pablo Navajo. "O pior ainda está por vir", acrescentou, referindo-se aos corpos que ainda estavam presos na fuselagem.Os sobreviventes foram levados a cinco hospitais. Ali, os serviços de emergência passaram a atender exclusivamente às vítimas do acidente. "Acho que quebrei o braço e mesmo assim me mandaram para casa", reclamava um dominicano. Uma queixa insignificante, comparada à de um senhor que entrava no Hospital La Paz. "Meu filho estava no avião, mas não quero falar. Estou tonto com tudo isso", balbuciou. Alguns feridos tiveram queimaduras graves em todo o corpo.IDENTIFICAÇÃOOs que não encontravam o nome dos parentes entre os sobreviventes iam para o Ifema, um conjunto de pavilhões usado para feiras, a cerca de 5 quilômetros do aeroporto, que foi transformado em necrotério improvisado. Até as 22 horas de ontem, pelo menos 20 furgões negros entraram com cadáveres. Eram os únicos veículos que não paravam no portão para a identificação do condutor. Os motoristas que chegavam com a rosto inchado pelo choro ou visivelmente nervosos eram encaminhados para uma entrada lateral. "Meu pai estava no vôo. Como posso entrar?", perguntou um jovem de aproximadamente 25 anos ao segurança. "Perdão, mas o senhor terá de dar a volta", respondeu o guarda. "Eu sei, já tinham me dito, mas estou tão atordoado que não encontro a entrada correta", disse o jovem, com o olhar disperso, antes de dar ré.Ele logo receberia duras instruções. Primeiro, descrever a um dos 80 membros das equipes de assistência psicológica os traços do pai: tipo e cor de cabelo, estatura, roupas que usava, marcas de nascença ou tatuagens. É a mesma estratégia usada em 2004 para amenizar a dor dos parentes. Um médico procura os corpos ou partes de corpos que se assemelham à descrição. Assim, ele veria apenas aqueles que poderiam ser seu pai. Não precisaria tentar encontrá-lo entre os mais de 150 corpos, incluindo o de mulheres e crianças. "Infelizmente, é a única forma de fazê-lo", disse o assessor de imprensa da prefeitura.A cicatriz do 11-M preparou Madri contra novas tragédias. Há médicos, psicólogos e assistentes sociais suficientes, ao ponto de voluntários serem recusados. "Sou advogada e decidi ajudar. Agradeceram e me disseram que telefonariam se precisassem", explicou Rocío Divar, de 26 anos. "Também estão preocupados com a segurança dos reis e do presidente. Não querem estranhos caminhando entre os pavilhões. Não querem uma nova tragédia", completa Rocío.PIORES TRAGÉDIAS583 mortos - Março de 1977. Dois Boeings 747, um da holandesa KLM e outro da americana Pan Am, colidem e pegam fogo em Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias (Espanha) 520 - Agosto de 1985. Boeing 747 da Japan Airlines bate contra uma montanha350 - Janeiro de 1996. Antonov-32 cai num mercado na República Democrática do Congo 349 - Novembro de 1996. Dois aviões colidem no ar, na Índia346 - Março de 1974. DC-10 da Turkish Airlines cai em Paris329 - Junho de 1985. Boeing 747 da Air India cai na Irlanda 301 - Agosto de 1980. Lockheed da Saudi Arabian Airlines pega fogo em Riad290 - Julho de 1988. Airbus da Iran Air é derrubado por engano, no Golfo Pérsico, por navio de guerra americano273 - Maio de 1979. Cai em Chicago DC-10 da American Airlines270 - Dezembro de 1988. Atentado derruba Boeing da Pan Am cai em Lockerbie, na Escócia269 - Setembro de 1983. Boeing da Korean Air Lines é derrubado por avião de guerra soviético264 - Abril de 1994. Airbus da China Airlines cai no Japão257 - Novembro de 1979. DC-10 da Air New Zealand bate numa montanha na Antártida199 - Julho de 2007. Airbus da TAM cai no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo

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