Ações de convivência na América Latina ajudariam diálogo

Ativista israelense de direitos humanos sugere que diásporas judaica e árabe trabalhem juntas

Cenário: Gabriel Toueg, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h05

Na semana em que Israel lançou a operação Pilar de Defesa contra o Hamas, na Faixa de Gaza, em uma escalada na região que matou 170 pessoas em 8 dias, o acadêmico e ativista israelense de direitos humanos Edy Kaufman esteve no Brasil para promover uma abordagem diferenciada para o conflito.

Nascido na Argentina, Kaufman vive parte do ano em Israel e parte nos Estados Unidos, onde é pesquisador convidado no Centro de Desenvolvimento Internacional e Gestão de Conflito da Universidade de Maryland. Ele sugere que as diásporas árabe e judia na América Latina ajam de forma a levar os países da região, em bloco, a ter um papel mais decisivo na mediação entre israelenses e palestinos. "A América Latina, que tem um importante histórico de atuação na região, precisa agir em uníssono", diz. "A maioria das pessoas nessas comunidades (judaica e árabe) tem em comum valores de democracia e direitos humanos. Por que, então, não trabalham juntas para exportar esses valores para a região do conflito?", questiona.

A proposta de envolver países da América Latina na mediação do conflito não é nova. Quando o ex-presidente Lula visitou a região, em 2009, ele levou a mensagem de que o exemplo de convivência entre árabes e judeus no Brasil deveria ser exportado para o Oriente Médio. Na época, contudo, Lula encontrou bastante ceticismo tanto entre palestinos quanto entre israelenses.

A proposta de Kaufman, entretanto, não trata de exportar apenas o exemplo nem pretende envolver a cúpula das comunidades, como seria possível imaginar. Para ele, o processo precisa partir de grupos pequenos da "periferia" judaica e árabe. "Eu teria preferido o caminho curto, o das lideranças, mas os líderes têm uma relação de dependência com a 'terra natal'", explica, ao referir-se a Israel e aos palestinos. "Hoje, estou convencido de que eles não devem participar desses esforços."

Em um encontro promovido na Universidade de São Paulo pelo Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano, Kaufman disse acreditar que as diásporas tendem a se "extremar" quando o conflito se acentua. "Mesmo atuando em grupos pequenos, de cinco pessoas de cada lado, não será fácil, é preciso construir confiança e legitimidade interna e entre os grupos."

Embora ele veja dificuldades para localizar e mobilizar essas pessoas, alguns grupos mistos de judeus e árabes já estão atuando, ainda que de forma tímida, em países como Uruguai, Argentina e Venezuela. No Brasil, um pequeno grupo partiu do núcleo de uma rede que tem hoje cerca de 115 pessoas.

Ao longo dos últimos dois anos, o pesquisador tem levado suas ideias e ouvido líderes árabes e judeus argentinos, brasileiros, chilenos, salvadorenhos, mexicanos, uruguaios e venezuelanos.

Entre as propostas que ouviu, há uma ousada: a de mover as embaixadas dos países latino-americanos de Tel-Aviv para Jerusalém, o que não é novo. Os países, contudo, abririam dois escritórios em Jerusalém - um na parte oriental, árabe, outro na ocidental, judaica. "Seriam duas embaixadas em uma Jerusalém", diz. "Não há que esperar que a paz venha para fazer esse tipo de coisa."

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