Kham / Reuters
Kham / Reuters

Ações de líder de Mianmar são ‘lamentáveis’, mas Nobel da Paz será mantido, diz fundação

Chefe do Nobel argumenta que não faz sentido retirar prêmios em resposta a coisas que acontecem após sua entrega, já que os juízes teriam de debater os méritos dos laureados constantemente

O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2018 | 11h29

ESTOCOLMO - Algumas das medidas tomadas por Aung San Suu Kyi como líder civil de Mianmar são “lamentáveis”, mas o prêmio Nobel da Paz concedido a ela não será retirado, disse o chefe da Fundação Nobel em entrevista concedida à agência de notícias Reuters.

Lars Heikensten, que se pronunciou dias antes da concessão do prêmio deste ano, disse que não faz sentido retirar prêmios em reação a coisas que aconteceram após sua entrega, já que os juízes teriam de debater os méritos dos laureados constantemente.

Investigadores da Organização das Nações Unidas (ONU) emitiram um relatório em agosto acusando os militares de Mianmar de realizar execuções em massa de muçulmanos da minoria rohingya com “intenção genocida”, em uma operação que levou mais de 700 mil refugiados a fugirem para Bangladesh.

Aung San, que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1991 por fazer campanha pela democracia e hoje lidera o governo de Mianmar, foi acusada no mesmo relatório de não usar sua “autoridade moral” para proteger civis.

“Vemos que o que ela tem feito em Mianmar vem sendo muito questionado, e defendemos os direitos humanos. Este é um dos nossos valores centrais”, disse Heikensten em entrevista realizada na sexta-feira, 28. "Então, é claro, na medida em que ela é responsável por isso, é muito lamentável."

O porta-voz do governo de Mianmar, Zaw Htay, não respondeu às ligações pedindo comentários na segunda-feira. Em setembro, ele disse que não conversará mais com a imprensa por telefone, apenas em entrevistas coletivas realizadas duas vezes por semana.

Mianmar rejeitou as conclusões da ONU, que qualificou como “unilaterais”, e disse que a ação militar, ocorrida após ataques de militantes às forças de segurança em agosto de 2017, foi uma operação de contrainsurgência legítima.

Relembre: ganhadora de prêmio Nobel é acusada de 'limpeza étnica'

Em setembro, Aung San disse que, em retrospecto, seu governo poderia ter lidado melhor com a situação no Estado de Rakhine, mas não reconheceu nenhum crime grave. “Não acreditamos que faria sentido tentar retirar prêmios. Isso nos envolveria em discussões constantes sobre os méritos do que as pessoas estão fazendo mais tarde, depois de terem recebido o prêmio”, disse Heikensten.

“Sempre houve e haverá laureados do Nobel que estão fazendo coisas depois de terem recebido o prêmio que não aprovamos ou que não achamos corretas. Isso não podemos evitar, acho”, acrescentou o chefe da Fundação Nobel.

O prêmio Nobel da Paz de 2018 será anunciado em Oslo nesta sexta-feira. / REUTERS

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