REUTERS/Sue-Lin Wong
REUTERS/Sue-Lin Wong

Ações de marxistas radicais causam temor em Partido Comunista da China

Governo chinês tem dificuldades para responder a jovens que usam a internet para criticar modelo de socialismo de mercado e crescentes injustiças sociais; quase 500 estudantes já foram presos

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2019 | 05h00

O chinês Zhang Shengye nasceu em 1999. Naquele ano, a China cresceu 7,6%, vinha de 24 anos de crescimento econômico ininterrupto e havia tirado tirado 300 milhões de pessoas da miséria. Uma mudança radical em relação aos anos 60, quando seus pais nasceram e o país encarava a Grande Fome que matou milhões de chineses. Mesmo assim, Zhang acha que a sociedade regrediu e a única maneira de o povo ser feliz é a volta “ao verdadeiro marxismo”. 

Zhang não está sozinho. Ele faz parte de um grupo que vem crescendo na China a ponto de assustar o governo: jovens marxistas radicais, críticos do modelo de socialismo de mercado implementado por Deng Xiaoping, na década de 70, e radicalizado pelo Partido Comunista, nos anos seguintes. Eles defendem a volta às raízes. “Quando você vai às fábricas e vê a condição de vida dos trabalhadores, no campo a situação miserável, percebe que nada disso faz sentido, precisamos voltar a um modelo mais justo e igualitário”, disse Zhang ao Estado.

Zhang não é louco. Ele estudou nas melhores escolas e se formou em na Universidade de Pequim, a vitrine do ensino do marxismo na versão chinesa. Assim como ele, milhares de jovens estudantes têm se voltado ao estudo do marxismo e a seu receituário para lutar contra o que chamam de crescentes injustiças sociais na China. 

Nos últimos cinco anos multiplicaram-se na internet grupos de marxistas radicais. São ao menos 30 grupos de estudantes, um deles com mais de 5 mil integrantes, que incluem leninistas, maoistas radicais e anarquistas. A maioria é de jovens, entre 18 a 25 anos, que usam a internet para espalhar suas ideias, participar de salas de bate-papo e lançar sites de notícias de esquerda, postando comentários sobre temas como poluição, globalização e teoria econômica, além de convocar encontros e protestos.

“Usamos principalmente o Twitter e o Weibo (o Facebook chinês) e outros mecanismos online para evitarmos o controle rígido do governo e a censura”, afirma Zhang. “Mas, nos últimos meses, tem sido quase impossível nos comunicarmos. Estamos quase na clandestinidade, trocando mensagens por telefone.”

De acordo com ele, o atual modelo de comunismo chinês foi imposto por um “grupo de reformistas liberais e de fato trouxe progresso, mas esqueceu de cumprir a principal promessa do marxismo: melhorar a vida das pessoas”. Segundo ele, a luta que os estudantes propõem não é pela derrubada do regime, nem pelo liberalismo democrático do Ocidente, mas “por uma divisão mais justa e igualitária da riqueza conquistada pelo avanço chinês” nas últimas décadas. 

Desde que iniciou suas reformas, nos anos 70, a China tirou 740 milhões de pessoas da pobreza, o PIB cresceu de US$ 150 bilhões, em 1978, para US$ 12,2 trilhões. No entanto, o socialismo não garantiu um padrão de vida razoável para todos. Segundo relatório recente do projeto World Wealth and Income Database, a fatia da riqueza nacional detida pelo 1% mais rico dobrou em 20 anos. Em 1995, o 1% mais afortunado tinha 15% da renda nacional. Essa parcela saltou para 30% em 2015.

O movimento dos estudantes é tão intenso que colocou em alerta o Partido Comunista. Desde maio, o PC vem usando suas táticas usuais para sufocar os marxistas radicais. Ao longo dos anos, o PC enfrentou uma miríade de dissidentes, reformadores pró-democracia, defensores dos direitos humanos e líderes religiosos.

O ataque aos estudantes segue sempre um método. Depois que os alunos formam sociedades estudantis, convocam reuniões para discutir o programa e fazem algumas ações fora da universidade, vem a repressão. Todo grupo estudantil precisa de um membro do corpo docente da faculdade para supervisioná-lo. O primeiro sinal de problemas com o governo é quando nenhum professor aceita ser um supervisor. Alguém de fora da comunidade acadêmica pode ser indicado, mas invariavelmente é vetado pelo PC. Foi o que ocorreu com dez sociedades estudantis marxistas no anos passado. 

Em agosto, houve a mais brutal repressão aos jovens marxistas. Um grupo de recém-formados em ciências políticas tentou colocar em prática os ideais estudados ao longo de cinco anos em textos de Marx, Lenin e Mao. Viajaram para uma cidade industrial em Huizhou, no sul do país, para organizar sindicatos em fábricas. 

As autoridades agiram rapidamente para esmagar os jovens ativistas, detendo 25 deles e suspendendo a conta na internet do grupo de estudos marxistas que comandavam. A repressão já prendeu quase 500 estudantes considerados radicais pelo Partido Comunista. Em setembro, policiais invadiram a residência estudantil e prenderam 20 alunos que dividiam quatro quartos. Eles foram condenados a 1 ano de prisão por “perturbar a ordem pública”.

Pânico no PC

O pânico dos governantes da China é justificável. Os marxistas representam uma ameaça que as autoridades não esperavam. Carregando retratos de Mao Tsé-tung e cantando hinos socialistas, eles defendem os ideais com que o governo os alimentou durante anos em aulas obrigatórias de ideologia, expressando queixas sobre questões como pobreza, direitos dos trabalhadores e igualdade de gênero – algumas das principais preocupações do comunismo.

“O que estamos fazendo é inteiramente legal e razoável”, disse ao New York Times Chen Kexin, um veterano da Universidade Renmin, de Pequim, que participou dos protestos. “Somos marxistas. Louvamos o socialismo. Estamos com os trabalhadores. As autoridades não podem nos atingir.”

O Partido Comunista não gosta muito dessa leitura tradicional do marxismo. Em maio, os líderes da China organizaram uma cerimônia suntuosa no Grande Salão do Povo, no coração político da capital chinesa, para comemorar o aniversário de 200 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. No discurso dirigido à cúpula e aos membros do PCC, o presidente Xi Jinping destacou que a decisão de “inscrever o marxismo na bandeira do partido permanece absolutamente correta”, apesar das profundas transformações pelas quais o mundo passou nestes dois séculos. 

“A vitalidade da teoria está na sua constante inovação. E o constante desenvolvimento do marxismo é o dever sagrado dos comunistas chineses”, disse Xi, sob uma imagem imensa do autor do Manifesto Comunista, publicado há 170 anos.

“A verdade é que os governantes chineses tremem ao pensar em um reavivamento marxista, porque isso é uma ameaça ao modelo de Estado criado por eles”, disse ao Estado Kerry Brown, especialista em China do King’s College, de Londres. “Xi acredita que tem de controlar tudo, todas as manifestações, caso algo saia do controle. Não importa se a atividade é pró ou antirregime, tem de ser controlada.” 

Para Brown, Pequim se agarra ao marxismo e invoca o direito de interpretá-lo e adaptá-lo como forma de se vincular ao povo. “Como acontece com qualquer ideologia, ela será interpretada por aqueles que têm o poder de fazê-lo, e o Partido Comunista faz isso ao prometer repaginar o marxismo.” / COM NYT E REUTERS

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