Karen Bleier/AFP
Karen Bleier/AFP

Ações judiciais assumem liderança na luta contra desinformação

Casos de difamação têm criado agitações em veículos de comunicação de direita, da Fox à Newsmax

Michael M. Grynbaum / The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em apenas algumas semanas, ações judiciais e ameaças legais de duas desconhecidas empresas de tecnologia eleitoral conseguiram o que anos de boicotes publicitários, campanhas de pressão pública e indignação liberal não conseguiram: desacelerar o fluxo de desinformação na mídia de direita.

A Fox Business cancelou seu programa de maior audiência, Lou Dobbs Tonight, na sexta-feira, depois que seu apresentador foi processado como parte de um processo por difamação de US$ 2,7 bilhões. Na terça-feira, o canal de TV a cabo pró-Trump Newsmax cortou o discurso de um convidado a respeito de urnas eletrônicas manipuladas. A Fox News, que raramente se curva aos críticos, tem apresentado quadros de verificação de fatos para desmascarar as falsas alegações de seus próprios âncoras sobre fraude eleitoral.

Esta não é uma estratégia característica da mídia de direita, que se orgulha do pugilismo e se delicia ao ignorar os liberais que há muito reclamam de seu conteúdo. Mas os veículos conservadores raramente enfrentaram esse nível de ataque direto à sua força econômica.

A Smartmatic, uma empresa de tecnologia eleitoral envolvida em conspirações propagadas pelo ex-presidente Donald Trump e seus aliados, abriu seu processo de difamação contra o império da Fox de Rupert Murdoch na quinta-feira, citando Dobbs e duas outras âncoras da Fox, Maria Bartiromo e Jeanine Pirro, por prejudicarem seus negócios e reputação.

A Dominion Voting Systems, outra empresa que Trump acusou de fraudar votos, abriu processos por difamação no mês passado contra dois dos advogados do ex-presidente, Rudy Giuliani e Sidney Powell, por motivos semelhantes. Ambas as empresas sinalizaram que mais ações judiciais podem estar prestes a acontecer.

O litígio representa uma nova frente na guerra contra a desinformação, um tormento que remodelou a política dos EUA, privou os cidadãos de fatos comuns e abriu caminho para o ataque mortal de 6 de janeiro no Capitólio. A Fox News, por exemplo, pagou milhões no ano passado para resolver uma reclamação da família de um integrante da equipe do Comitê Nacional Democrata assassinado que foi falsamente acusado por âncoras da Fox de vazar e-mails para o WikiLeaks.

Mas o uso de processos por difamação também levantou questões incômodas em relação a como policiar um meio de comunicação que conta com as proteções da Primeira Emenda - mesmo com alguns veículos conservadores divulgando as mentiras de Trump e corroendo a confiança da opinião pública no processo democrático.

“Se você tivesse me perguntado 15, 5 anos atrás, se eu algum dia teria me envolvido em um caso de difamação, eu teria respondido que não”, disse Roberta Kaplan, advogada que representa a sobrinha de Trump, Mary Trump, e a escritora E. Jean Carroll em processos por difamação contra o ex-presidente.

Como outros liberais de destaque em sua profissão, Roberta há muito considerava os processos por difamação uma forma de os ricos e poderosos tentarem silenciar seus críticos. No ano passado, a campanha de Trump processou várias empresas jornalísticas por uma cobertura que o presidente considerou desfavorável ou injusta. O bilionário da tecnologia Peter Thiel financiou o processo de Hulk Hogan contra o blog de fofocas Gawker que acabou levando o negócio à falência.

"O que mudou", disse Roberta, "e todos nós vimos isso acontecer diante de nossos olhos, é o fato de que tantas pessoas lá fora, incluindo pessoas em posições de autoridade, estão dispostas a dizer qualquer coisa, independentemente de qualquer relação com a verdade ou não. ”

Alguns defensores da Primeira Emenda dizem que um axioma - o melhor antídoto para o discurso ruim é mais dele mesmo - pode não se aplicar mais em um cenário midiático onde a desinformação pode tomar conta do discurso público por meio de incontáveis canais, da TV a cabo às páginas de amigos e familiares no Facebook.

“Essa não deveria ser a maneira de governar o discurso em nosso país”, disse Roberta. “Não é uma forma eficiente ou produtiva de promover padrões jornalísticos de qualidade ou de apuração da verdade por meio de litígios em tribunais. Mas acho que se chegou ao ponto em que o problema é tão grave agora que não há praticamente nenhuma outra maneira de fazer isso. ”

A ascensão de Trump foi uma parte indissociável dessa mudança. Sua popularidade aumentou os lucros e o poder dos comentaristas de direita e dos meios de comunicação que o defendiam. Em novembro, quando Trump lançou dúvidas acerca do resultado da eleição presidencial, apesar de nenhuma evidência crível, isso fez sentido comercial e editorial para seus aliados da mídia seguirem seu exemplo.

O âncora da Newsmax Greg Kelly se recusou a aceitar Joe Biden como presidente eleito e foi recompensado com uma disparada na audiência. A Fox News foi mais cautelosa - a rede declarou Biden o próximo presidente em 7 de novembro - mas algumas estrelas da Fox, incluindo Dobbs, Maria e Jeanine, ofereceram um tempo no ar significativo para os advogados de Trump, Giuliani e Powell, e outros que divulgaram a bizarra narrativa de fraude eleitoral.

Em um exemplo citado na queixa de 276 páginas apresentada pela Smartmatic, o programa de Dobbs transmitiu uma falsa alegação de Powell de que Hugo Chávez, o ex-presidente da Venezuela, esteve envolvido na criação da tecnologia da empresa e instalou um software para que os votos pudessem ser trocados e isso não fosse detectado (Chávez, que morreu em 2013, não teve nenhuma relação com a Smartmatic).

Executivos da mídia conservadora argumentam que o processo da Smartmatic levanta questões desconfortáveis sobre como as empresas jornalísticas deveriam apresentar figuras públicas: Sidney era uma conspiradora, mas ela também era a advogada do presidente. Um meio de comunicação deve ter permissão para divulgar as reivindicações dela?

“Há um novo padrão criado a partir disso que é muito perigoso para todos os canais de TV a cabo”, disse Christopher Ruddy, proprietário da Newsmax e amigo íntimo de Trump, em uma entrevista no sábado. “Você tem de verificar tudo o que as figuras públicas dizem e pode ser responsabilizado pelo que elas dizem.” Ruddy afirma que a Newsmax apresentou uma visão justa das alegações sobre fraude eleitoral e empresas de tecnologia de votação.

Os funcionários da Newsmax, no entanto, foram alertados quanto aos potenciais danos decorrentes de alegações que apareceram em seus programas. Em um extraordinário momento no ar na terça-feira, Mike Lindell, o fundador da empresa de travesseiros  MyPillow e um aliado ferrenho de Trump, começou a atacar a Dominion - e foi prontamente interrompido por um âncora da Newsmax, Bob Sellers, que leu uma declaração formal de que a Newsmax havia aceitado os resultados da eleição “Como legais e ponto final.”

Os executivos da Fox revelaram suas próprias preocupações em dezembro, depois que a Smartmatic enviou uma carta sinalizando que o litígio era iminente. A Fox News e a Fox Business transmitiram quadros nada comuns e forçados no qual um especialista em eleições, Edward Perez, desmascarou teorias de conspiração sobre fraude eleitoral que haviam sido recentemente veiculadas nas redes. O segmento foi ao ar em três programas - aqueles apresentados por Dobbs, Maria e Jeanine. (A Newsmax, que também recebeu uma carta da Smartmatic, levou ao ar seus próprios esclarecimentos.)

Yochai Benkler, professor da Escola de Direito de Harvard que estuda desinformação e radicalização na política dos EUA, disse que as mentiras do então presidente a respeito da eleição encorajaram os canais pró-Trump a ultrapassar os padrões relativamente frouxos aplicados aos comentaristas no ar.

“A dinâmica competitiva na indústria de indignação de direita os forçou a perder o controle e se comportar de maneira inaceitável”, disse Benkler. “Este é o primeiro conjunto de ações judiciais que realmente os forçará a internalizar o custo dos danos que estão infligindo à democracia.”

Benkler chamou o processo da Smartmatic de "um corretivo útil" - "é um pisar nos freios" - mas também pediu moderação. “Temos que ser muito cautelosos em nossa comemoração quanto a esses processos porque o histórico da difamação é sem dúvida aquele em que as pessoas no poder tentam derrubar os críticos”, disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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