Ações neonazistas se intensificam na Alemanha

Gangues radicais atraem seguidores mais jovens usando ferramentas como shows de música e eventos esportivos

RENATA MIRANDA, ENVIADA ESPECIAL, LEIPZIG, ALEMANHA, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h04

Dia de jogo é dia tenso no centro de treinamento do clube de futebol Roter Stern, na periferia de Leipzig, no leste da Alemanha. A preocupação do técnico e dos jogadores não tem nada a ver com seus adversários e o nível de dificuldade que enfrentarão no campo, mas sim com o que pode ocorrer fora dele.

Há pouco mais de dois anos, as partidas do modesto time da 7.ª divisão ganharam destaque semelhante ao dado às equipes profissionais da Bundesliga depois de um controvertido incidente com um grupo de neonazistas. Desde então, a segurança adotada em seus jogos é extrema.

Em outubro de 2009, militantes de um grupo de extrema direita invadiram o campo dois minutos depois de um jogo do Roter Stern começar. "Construiremos um trem de Leipzig para Auschwitz", cantavam as dezenas de homens armados com paus e barras de ferro enquanto agrediam jogadores e torcedores da equipe de Leipzig. Três pessoas ficaram feridas - uma delas perdeu a visão.

"Nossa equipe é alvo porque lutamos contra a discriminação", disse ao Estado a porta-voz do Roter Stern, Janina Dunker. "Antes de todos os jogos, sempre temos de nos reunir com a polícia para montar um esquema reforçado de segurança."

O caso do Roter Stern, no entanto, não é único. Episódios como esse não se restringem só às partidas de futebol na periferia de Leipzig e, cada vez com mais frequência, casos assim vêm sendo registrados em todo o país, expondo uma nova frente de atuação de grupos da extrema direita na Alemanha.

Recentemente, segundo especialistas, o movimento neonazista aumentou sua área de influencia em eventos recreativos, usando essas oportunidades para disseminar sua mensagem. "Essas organizações estão tentando atrair o público jovem usando música e esporte", afirmou a socióloga alemã Helgard Kramer, pesquisadora que estuda o tema. "O que temos hoje são pequenos grupos que operam de maneira independente e buscam impulsionar um sentimento racista entre jovens sem perspectiva."

Para Peer Volderwülbecke, jornalista que há anos acompanha casos relacionados ao terrorismo da extrema direita na Alemanha, o esporte vem sendo utilizado cada vez mais como ferramenta por grupos neonazistas. No entanto, ele explica que a música também desempenha um papel crucial dentro do movimento. "Todo o fim de semana há shows desse tipo na Alemanha", disse Volderwülbecke. "Muitas ações ilegais ocorrem nessas apresentações, como o sinal de saudação a Hitler e o uso de símbolos nazistas."

O cientista político Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim, explica que muitos desses crimes seguem impunes por dois fatores específicos. O primeiro é que muitas das vítimas têm medo de denunciar seus agressores, principalmente em áreas no interior do país. O segundo é que ainda há uma certa resistência por parte da polícia em classificar esse tipo de crime como delito político. "As autoridades tentam acobertar esses atos, fingindo que não são importantes", disse Funke.

Um exemplo da falta de compromisso por parte das autoridades, segundo o especialista, foi a falha dos serviços de inteligência em identificar e combater a célula neonazista de Zwickau, acusada de matar nove empresários de origem turca e grega e uma policial entre 2000 e 2007. O grupo foi descoberto em novembro do ano passado e, segundo relatos de parentes das vítimas, a polícia inicialmente rejeitou tratar os crimes como cometidos pela extrema direita e trabalhava com a hipótese de que as mortes teriam sido motivadas por tensões familiares ou por envolvimento com a máfia.

O episódio chocou a Alemanha e fez com que a chanceler Angela Merkel fosse a público pedir desculpas pelas suspeitas dos investigadores.

"Esses anos devem ter sido um pesadelo sem fim para vocês", disse a chanceler. "Vocês não estão mais sozinhos em seu sofrimento. Nós dividimos com vocês sua dor."

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