Ações para impedir que a Ucrânia se torne a Síria

O segredo de uma paz duradoura está na saída das tropas de Putin e no controle da fronteira oriental por Kiev

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2015 | 02h03

"Nunca mais!" clamaram os europeus depois da 1.ª Guerra. Mas aconteceu novamente. "Nunca mais!" repetiram depois de 1945, mas houve outra guerra. "Nunca mais!", clamaram de novo após a Bósnia, em 1995, e houve mais uma guerra. Duvido que o acordo de cessar-fogo de Minsk, intermediado com heroicos esforços pela chanceler alemã, Angela Merkel, nos conduza à paz. Reflitamos sobre o que permitimos que acontecesse.

Mais um país europeu foi dividido à força. Segundo estimativas da ONU, pelo menos 5,4 mil pessoas já morreram, cerca de 13 mil ficaram feridas e 1,6 milhão de moradores foram obrigados a abandonar suas casas. A Rússia anexou formalmente a Crimeia, que fazia parte de um Estado soberano. O acordo de cessar-fogo 'Minsk 2' afirma que a Ucrânia só recuperará o pleno controle de sua fronteira oriental com a Rússia no fim deste ano, e somente se realizar eleições e conceder um "status especial' constitucional às regiões de Donetsk e Luhansk. Também estabelece que o governo de Kiev deverá continuar pagando pensões, salários e serviços públicos a ambas regiões. Imaginem. O cidadão só poderá fechar a porta de casa se ceder a sala a alguém que está com uma arma apontada para a sua cabeça - e ainda terá de continuar pagando as contas dele.

Pessoas razoáveis talvez discordem quanto à melhor maneira de reagir a essa vergonhosa agressão, mas pelo menos não devemos nos iludir a respeito do que está acontecendo diante dos nossos olhos. Vladimir Putin enfrenta a União Europeia de uma maneira diferente, mais antiga e pior de fazer política. O poder está com a razão. Preto é branco. A guerra voltou e a lei vacila à beira do fosso como um refugiado ferido.

Tudo isso num país cuja integridade territorial Rússia, EUA e Grã-Bretanha juraram defender no memorando de Budapeste de 1994, se, em troca, uma Ucrânia novamente independente se comprometesse a abrir mão dos maiores estoques de armas nucleares do mundo. Como diz o documento: "A Federação Russa, a Grã-Bretanha e os EUA reafirmam seu empenho em respeitar a independência, a soberania e as atuais fronteiras da Ucrânia".

Imaginem a lição que esta quebra de confiança representará para outras potências nucleares atuais e futuras: o que quer que vocês façam, não acreditem nem em uma palavra dessas promessas, e não abram mão de suas armas nucleares.

A lei da selva de Moscou ameaça a lei da selva de Bruxelas. Quem é que ganha? "A Rússia", responde o conhecido 'realista' americano John Mearsheimer. Então o que devemos fazer? "O Ocidente deveria tornar a Ucrânia um Estado-tampão neutro entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ela deveria se tornar como a Áustria durante a Guerra Fria. No final, o Ocidente teria de retirar explicitamente a UE e a expansão da Otan da mesa." Bem, obrigado professor realista. Talvez o senhor mesmo prefira selar o acordo. Temos a localização perfeita para sua cúpula sobre realpolitik: Yalta, onde em 1945 Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill conferiram uma ambígua legitimidade à ocupação soviética do Leste Europeu. É Yalta, na Crimeia recentemente anexada.

Que direito temos nós de instruir outros países soberanos independentes a se tornar Estados-tampões neutros? Garry Kasparov, que conhece a Rússia um pouco melhor do que Mearsheimer, tuitou há alguns dias: "Os 'realistas' aparentemente estão felizes por condenar milhões de ucranianos a viver como prisioneiros num território ocupado. Na Europa, no século 21".

Há dias, falei com Kasparov a respeito da Ucrânia. Ele esteve em Kiev para comemorar o 20.º aniversário do memorando de 1994, e sua visão da tragédia é ousada, original, como sua técnica no jogo do xadrez. Segundo ele, este conflito não está sendo travado entre a Ucrânia e a Rússia, mas entre duas Rússias.

As pessoas podem ser levadas a percorrer caminhos desastrosos, principalmente quando uma propaganda astuta explora os mitos e o sofrimento nacionais. Anos mais tarde, a nação desperta e começa a pagar o preço. Ser contra Putin não significa ser contra os russos. É ter uma visão mais avançada em favor dos russos: defender os russos que sofrem, os representantes da outra Rússia.

Observe-se que Putin está infringindo o princípio que ele sempre alardeou o alicerce das relações internacionais: a soberania incontestável dos países. Mas, poderão dizer, que são impostores esses países que invadiram o Iraque e criticaram energicamente outros por violar a soberania! A resposta é: de fato, a invasão do Iraque foi um erro, em termos legais, morais e estratégicos, mas não se repara uma injustiça com outra injustiça.

E ainda se poderá salientar, na Síria há matanças que fazem a Ucrânia parecer um país quase pacífico, e a ONU já calcula 3,8 milhões de refugiados. O que o Ocidente está fazendo a esse respeito? A vida de cidadãos árabes valerá menos que a de europeus, a de muçulmanos menos que a de cristãos? Toda semana acordo pensando: 'Eu não deveria escrever sobre a Síria?' Mas à parte o fato de que conheço menos o Oriente Médio do que a Europa, o que aprendo dos especialistas não aponta nenhum caminho claro para o futuro. Aparentemente, há um número enorme de grupos combatendo no conflito da Síria, respaldado por várias potências externas (até mesmo a Rússia, que apoia Bashar Assad).

Mas, neste caso, apesar de toda a complexidade da Ucrânia, há um caminho para o futuro. Em poucas palavras: Putin precisa retirar suas forças e a Ucrânia precisa exercer o controle total de sua fronteira oriental. Portanto, ao contrário do que acontece na Síria, o fator mais importante é a mudança de comportamento de um único ator político. Na verdade, isso não faria com que separatistas parassem de lutar, da noite para o dia, por sua República Popular de Donetsk. Na Ucrânia oriental, como na Síria, a brutalidade radical da guerra transformou vizinhos em inimigos. Então, se deveria exigir uma suprema arte de governar, e imaginação, de Kiev para reconstruir um Estado ucraniano efetivamente federal, em que as pessoas que se identificassem como russas pudessem sentir-se de novo razoavelmente em sua pátria. O caminho de toda paz duradoura começa ali. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR E PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD E PESQUISADOR SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION, DE STANFORD

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