Acordo com Irã é vitória para os EUA

Pacto reduzirá o programa nuclear iraniano, que será congelado e rigorosamente avaliado

JOE CINCIRIONE, GLOBAL VIEWPOINT

12 de abril de 2015 | 02h01

O fantástico acordo nuclear iraniano atende a todos nossos objetivos em matéria de segurança nacional, e a alguns mais. Este é um considerável triunfo que, quando for finalizado no fim de junho, reduzirá extraordinariamente o programa nuclear do Irã, que será congelado e colocado praticamente sob o microscópio.

Há muitos detalhes que precisam ser trabalhados, mas o único motivo para se contestar o acordo seria, antes de mais nada, não querer nenhum acordo.

Esta, evidentemente, era a posição dos adversários políticos e ideológicos do presidente Barack Obama nos EUA e no exterior. Eles foram apanhados de surpresa pelas dimensões do acordo, apenas lhes restando as declarações hiperbólicas e os insultos.

O senador Mark Kirk (republicano, de Illinois) comparou o acordo a uma conciliação com os nazistas. "Os iranianos não terão mais nada a fazer senão correr desesperadamente para construir uma arma nuclear", afirmou Kirk.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, repetiu o que vem dizendo nos dois últimos anos, ou seja, que o acordo "preparará o caminho" para que o Irã construa uma bomba. (Na realidade, ele vem alertando desde 1992 que bastariam alguns anos para o Irã ter a bomba.) Netanyahu, Kirk e toda a corte política neoconservadora também denunciaram o acordo temporário concluído em novembro de 2013 como um "péssimo acordo". Estavam errados. E na quinta-feira, Obama se dirigiu a eles dizendo: "Há mais de um ano, demos o primeiro passo para a estrutura assinada hoje de um acordo que busca deter o programa nuclear do Irã e revertê-lo em suas áreas principais. Lembrem que, na época, os céticos afirmaram que o Irã recorreria a trapaças, e nós não poderíamos verificar o cumprimento das condições, e portanto o acordo temporário fracassaria".

Ao contrário, ocorreu exatamente o que estava estipulado. O Irã cumpriu todas suas obrigações. Eliminou seu arsenal de material nuclear mais perigoso. As inspeções do programa aumentaram. E nós avançamos com as negociações esperando conseguir um acordo mais abrangente.

"Hoje, depois de vários meses de intensos e difíceis trâmites diplomáticos, chegamos à estrutura deste acordo. É um bom acordo, um acordo que atende a nossos objetivos fundamentais."

Na realidade, os críticos de Obama estavam errados a respeito de todos os aspectos da negociação, desde que Obama se declarou inicialmente disposto a conversar com os nossos adversários num debate presidencial em julho de 2007. Como observa o diretor da redação de Washington do Huffington Post, Ryan Grim: "Na esteira dos principais acordos realizados com dois outros antigos adversários dos Estados Unidos, China e Cuba, Obama está construindo persistentemente um legado diplomático em cumprimento de sua retórica de campanha. ... Como a única alternativa realista às negociações seria a guerra contra o Irã, o compromisso de Obama neste processo destaca-se como um testemunho do poder da diplomacia quando se trata de evitar, ou pelo menos adiar, derramamento de sangue".

A beleza deste acordo está em permitir que todas as nações envolvidas deixassem a mesa declarando vitória. Todo bom acordo deveria fazer isso, quer se trate de trabalhadores e empresas, ou do P5 + o Irã.

Portanto, o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, que foi cercado pela multidão ao voltar a seu país, pôde dar uma triunfante declaração de que o Irã atingiu todos seus objetivos. Nenhuma central nuclear iraniana será fechada, o enriquecimento prosseguirá, o reator para a produção de plutônio de Arak continuará, e a central subterrânea de enriquecimento em Fordo permanecerá aberta.

Céticos. Zarif está certo. O Irã manterá todas suas construções. Mas nós tiraremos os móveis. O empreendimento nuclear do Irã será reduzido a uma fração de suas dimensões atuais. Foi isso que tanto impressionou até mesmo os observadores mais céticos.

Gary Samore, presidente da organização United Against Nuclear Irã, disse que o acordo é uma "solução muito satisfatória no caso de Fordo e Arak". Richard Haass, ex-funcionário do governo Bush e presidente do Conselho de Relações Exteriores, afirmou: "Os céticos, eu incluído, devem estar agradavelmente surpresos. ... Mantidas as circunstâncias, acho que, pelo menos superficialmente, este parece um bom acordo".

Anthony Cordesman, diretor da estratégias do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse: "Nenhum acordo perfeito seria possível, e é difícil acreditar que fosse negociável uma opção melhor. Na realidade, esta pode ser uma vitória real para todas as partes: um futuro melhor para o Irã, e mais segurança para os EUA e seus parceiros árabes, para Israel e todos os outros aliados".

O mais surpreendente foi talvez o fato de o âncora da Fox News, o autor de best-seller Bill O'Reilly comentar: "As pessoas não querem uma guerra com o Irã. Elas não querem bombardear o país, pois as consequências indesejadas fariam disparar o alarme no mundo todo. Portanto, conseguindo-se algo decente, devemos experimentá-lo".

Uns poucos detalhes extraídos do relatório da Casa Branca sobre o acordo dão a sensação de que se trata de uma vitória avassaladora. O estoque de centrífugas do Irã - as máquinas para o enriquecimento do urânio usado como combustível ou para bombas - será reduzido: de cerca de 20 mil, restarão aproximadamente 6 mil. Somente 5 mil das máquinas remanescentes poderão de fato continuar enriquecendo. Cerca de 14 mil máquinas instaladas nos últimos dez anos serão desativadas e deixadas num depósito supervisionado.

Redução. O estoque de urânio de baixo enriquecimento do Irã - o gás que alimenta as centrífugas - sofrerá um espantoso corte de 97%, de cerca de 10 toneladas para 300 quilogramas. Estes dois cortes juntos significam que mesmo que o Irã tentasse "romper o acordo", precisaria de pelo menos um ano para produzir o urânio altamente enriquecido para uma bomba.

O núcleo de combustível do reator de Arak será destruído, e será substituído por um novo núcleo que produzirá uma fração do plutônio do projeto original. A produção anual encolherá, de cerca de 8 quilogramas ao ano para menos de 1 quilograma. O Irã será proibido até mesmo de buscar a possibilidade de reprocessamento que lhe permitiria extrair o plutônio das varetas de combustível usado. E por via das dúvidas, o Irã será obrigado a exportar todas as varetas do combustível usado que forem retiradas do reator.

E há muito mais. Mas a parte mais importante do acordo é talvez o fato de que o Irã concordou com o mais rigoroso regime de inspeções jamais negociado. Nós poderemos acompanhar o percurso do urânio, do momento em que sair da mina até seu armazenamento em cilindros. Teremos acesso a lugares e a instalações que antes nos eram interditados.

Algumas das restrições do acordo durarão 10 anos, outras 15, outras ainda 25, e muitas, como a proibição de construir armas nucleares e o regime de inspeções, como os diamantes, serão para sempre.

Em suma, o acordo impedirá, e poderemos verificar, que o Irã construa uma bomba durante pelo menos 15 anos. Nenhum soldado americano precisará perder a vida, e tudo não custará nem um centavo. O que pedir mais? Esta é sem sombra de dúvida a melhor de todas as opções possíveis. / Tradução de Anna Capovilla

*É presidente do fundo Ploughshares e especialista m proliferação nuclear

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