‘Acordo com Teerã será altamente imperfeito’

Ex-negociador americano afirma que pacto nuclear está próximo, mas terá caráter temporário, para testar promessas do Irã

Cláudia Trevisan, correspondente em Washington,

20 de novembro de 2013 | 23h28

WASHINGTON - Apesar de necessário, o acordo que as potências mundiais buscam com o Irã será "altamente imperfeito", conseguirá apenas atrasar o relógio no avanço do programa nuclear iraniano e criar um "período de teste" para a hipótese de que é possível alcançar uma solução permanente que evite um conflito armado entre Israel e a república islâmica, para o qual os EUA seriam arrastados.

A avaliação é de Aaron David Miller, que em 1978 e 2003 atuou no Departamento de Estado como conselheiro e negociador nas discussões entre o mundo árabe e Israel. A seguir, a entrevista ao Estado.

O Irã disse que não exigiria o reconhecimento explícito de seu direito de enriquecer urânio. Isso abre caminho a um acordo?

O artigo 4.º do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) não menciona o direito de enriquecer urânio, portanto, em tese, os iranianos não têm esse direito. Nós não sabemos ainda quais serão os termos do acordo, mas eu acredito que isso já é parte dele. Os dois lados podem dizer que continuam a discordar sobre a noção do direito de enriquecer, ao mesmo tempo em que aceitam na prática que o Irã será capaz de enriquecer. O P5+1 (formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha) exigirá que isso ocorra num patamar limitado, que seja monitorado. Não penso que o direto de enriquecer é um problema.

Qual é a probabilidade de um acordo?

Bem alta. Suspeito que nesta ou na próxima semana ele ocorra.

Por que ele é importante?

Para os EUA, porque oferece um caminho para obtenção de duas coisas. Primeiro, se for implementado, ele vai suspender os aspectos mais preocupantes do programa nuclear iraniano por um período de seis meses. Não permitirá que o Irã continue a buscar a capacidade de produzir armas nucleares. Segundo, ele também vai testar a proposição de que é possível alcançar um acordo que acabe com os aspectos militares do programa iraniano. Se os iranianos continuarem a buscar a capacidade de produzir armas nucleares, tenho poucas dúvidas de que Israel vai usar a força militar e isso tem o potencial de arrastar os EUA (para o conflito). Alternativamente (sem o acordo), se o programa iraniano continuar de forma avançada, isso coloca o presidente (Obama) em uma posição na qual ele também usará a força militar. O acordo é uma aposta e penso que, pelo menos do ponto de vista dos americanos - não dos israelenses - vale o risco.

Os israelenses são muito críticos ao acordo. Por quê?

Eles devem ser. As posições que você adota na vida têm muito a ver com onde você está. Os israelenses não estão onde nós estamos. Não há risco de uma escalada contra os EUA. Mesmo se o Irã tivesse uma arma nuclear, ela não ameaçaria de maneira direta os americanos. Mas isso afetaria diretamente Israel.

Qual acordo seria aceitável para Israel?

O melhor que eles conseguirão fazer é atrasar o relógio e assegurar aos israelenses que os iranianos estão a "x" meses ou anos de desenvolver a capacidade de produzir armas nucleares. Eles não serão capazes de acabar com a tecnologia e conhecimento exigidos para isso. Os iranianos já os têm. Se o xá (Reza Pahlevi) não tivesse sido derrubado em 1979, o Irã já seria um Estado nuclear. Não deve haver ilusões aqui: a razão pela qual o Irã não tem a bomba são as sanções. A questão é se, em um esforço para atrasar a obtenção da capacidade nuclear por meses ou um ano, nós estamos preparados para alcançar um acordo. E isso não será bom para as relações entre EUA e Israel e para os esforços de buscar um acordo entre israelenses e palestinos, no qual é necessário um grau de confiança e segurança que não temos em consequência do que está acontecendo. Um acordo entre EUA e Irã não é motivo para abrirmos as garrafas de champanhe. É um acordo necessário, altamente imperfeito, para testar se um pacto permanente pode ser alcançado.

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