Acordo com tribos reforça Taleban

Sob críticas dos EUA, governo do Paquistão busca pactos nas Áreas Tribais onde militantes islâmicos têm forte apoio

Angela Perez, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Cada vez mais preocupados com o fortalecimento do Taleban no Afeganistão, os EUA estudam novos meios de lidar com a questão e o secretário americano de Defesa, Robert Gates, admite a possibilidade de enviar forças adicionais ao país do sul da Ásia para conter o fluxo de insurgentes que cruzam a fronteira, vindos do vizinho Paquistão.Enquanto no Iraque se registra uma significativa redução no número de atentados, no Afeganistão, o Taleban intensificou seus ataques em larga escala contra as forças estrangeiras. Militares americanos disseram que este ano houve um aumento de 40% nos ataques em relação ao mesmo período do ano passado."Os EUA não entendem que quando eles matam um inocente nessa parte do mundo seus parentes e amigos buscam vingança. O Afeganistão é um país onde a resistência à ocupação tem grande apoio da população", disse Marc Harold, da Universidade de New Hampshire.As forças dos EUA e da Otan têm causado cada vez mais mortes de civis afegãos em seus ataques aéreos contra supostos esconderijos de militantes islâmicos. No início do mês, um avião dos EUA bombardeou uma festa de casamento no leste do Afeganistão, matando 47 pessoas, entre elas, a noiva. Os EUA acusam o Paquistão, seu principal aliado na luta contra o terror, de não estar fazendo o suficiente para conter os militantes que, segundo Washington, refugiam-se nas áreas tribais fronteiriças com o Afeganistão. Mas o Exército do Paquistão rejeita a acusação e destaca que 1.087 de seus soldados morreram nas Áreas Tribais desde 2002, mais do que os 892 soldados que as forças da Otan e dos EUA perderam desde a invasão do Afeganistão, em outubro de 2001, para depor o regime do Taleban.O novo governo paquistanês, eleito em fevereiro, iniciou recentemente negociações com líderes tribais e de grupos radicais islâmicos para tentar obter a paz na região. Funcionários paquistaneses dizem que o governo do primeiro-ministro Yousef Raza Gillani quer obter a confiança dos líderes tribais por meio do diálogo. Eles acrescentam que o governo não pode continuar atacando as Áreas Tribais, como desejam os EUA, pois estaria matando seu próprio povo e isso só provocaria mais revolta e divisão.Funcionários americanos atribuem o aumento da violência no Afeganistão às negociações de paz que o governo paquistanês vem conduzindo na região tribal. Eles dizem que a trégua está permitindo o fortalecimento dos militantes. Apesar disso, analistas apostam nas negociações nas Áreas Tribais como a melhor opção. "O objetivo das negociações é obter a paz por meio de instituições e mecanismos tradicionais que são amplamente respeitados na região", disse ao Estado Rasul Bakhsh Rais, professor de ciências políticas da Universidade de Lahore. "O diálogo tem sido mantido com líderes da Província da Fronteira Noroeste, que estão dispostos a depor armas, expulsar os militantes estrangeiros e respeitar a autoridade do governo central", acrescentou.De acordo com Harold, "o governo civil tem outros interesses, está se distanciando da aliança com os EUA forjada pelo presidente Pervez Musharraf e tentando resolver o problema da divisão no Paquistão".O Paquistão apoiou o Taleban quando o grupo radical islâmico governou o Afeganistão entre 1996 e 2001, mas Islamabad retirou oficialmente seu respaldo ao movimento por causa da intensa pressão dos EUA após os atentados de 11 setembro de 2001 ordenados pelos líderes da Al-Qaeda, hóspedes do Taleban. O presidente afegão, Hamid Karzai, acusou o serviço de inteligência do Paquistão de estar por trás do atentado suicida do dia 7 contra a Embaixada da Índia em Cabul, que deixou mais de 60 mortos. No entanto, não apresentou nenhuma evidência oficial do envolvimento do Paquistão. "As relações entre o Paquistão e a Índia melhoraram nos últimos três anos, por isso não vejo nenhum interesse ou lógica para o Paquistão ordenar tal ataque", disse Rais. "A situação na região é tão ruim e há tantos grupos militantes atuando no país, que é difícil apontar um culpado", acrescentou. Segundo Harold, é claro que o Paquistão está preocupado com o crescente envolvimento da Índia - um antigo rival com quem travou três guerras - no Afeganistão. Mas não acredita que isso seria motivo para um atentado.Os analistas também não crêem que o Paquistão esteja armando os militantes do Taleban, como acusa o governo afegão. "O Taleban compra armas no mercado negro com o dinheiro da venda de drogas e possivelmente recebe grande quantidade de armas e doações em dinheiro de simpatizantes no Oriente Médio", disse Michael Williams, do Royal United Services Institute for Defence and Security Studies, de Londres.O professor Rais lembra que o Afeganistão tornou-se o maior produtor mundial de papoula, plantada nas áreas dominadas pelo Taleban. "Segundo estimativas, a produção do ópio rende cerca de US$ 3 bilhões ao ano ao Taleban."Para os especialistas, o Taleban se fortaleceu não apenas por causa da venda de drogas, mas também por causa do governo fraco de Karzai, que não conseguiu unir e estabilizar o país, e, principalmente, por causa dos erros da polícia americana no Afeganistão.Segundo Harold, os EUA precisam entender que o Taleban e a Al-Qaeda têm agendas diferentes, por isso precisam ser tratados de forma diferente. "A Al-Qaeda trava uma jihad (guerra santa) contra o Ocidente, fora do Afeganistão e do Paquistão. O Taleban, por sua vez, é um grupo formado por pashtuns nacionalistas, que querem preservar sua cultura, seu modo de vida e religião." Para o professor, as forças da Otan e dos EUA deveriam sair do Afeganistão e o governo afegão deveria negociar um acordo político como vinha ocorrendo anteriormente. "Seria um acordo político entre tribos e subtribos. Essa idéia de um governo central forte no Afeganistão não tem nenhuma chance de sucesso e todos sabem disso."

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