REUTERS/Omar Sanadiki
REUTERS/Omar Sanadiki

Acordo de regime sírio com rebeldes fracassa e prolonga massacre de civis

Tentativa de retirar moradores e insurgentes de Alepo diante do avanço de tropas leais ao presidente Bashar Assad falha e população teme represálias após quase seis anos de guerra civil; Rússia e Turquia isolam ONU de negociações sobre trégua

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2016 | 21h08

A trégua entre o regime de Bashar Assad e rebeldes na Síria, que deveria permitir a retirada de milhares de civis da zona de conflito de Alepo, fracassou nesta quarta-feira, 14. Após 15 horas de alívio, os ataques e bombardeios foram retomados no distrito leste da cidade, colocando em risco as vidas de famílias que tentam deixar a região, epicentro da guerra iniciada em 2011. 

Na Europa, Rússia e Turquia assumiram hoje as negociações por um novo cessar-fogo, isolando das discussões as potências ocidentais e a Organização das Nações Unidas (ONU).

Os dois lados se acusavam de ter violado a trégua. Segundo o regime, os rebeldes tentaram aumentar para 10 mil o número dos autorizados a deixar a área sitiada. Os rebeldes argumentavam que o regime e milícias apoiadas pelo Irã condicionavam a saída dos civis à desmobilização dos opositores em outras cidades fora do controle do governo. Também sustentaram que as milícias iranianas exigiram a libertação de reféns nessas localidades e a recuperação dos corpos dos iranianos mortos em Alepo.

A criação de um corredor humanitário havia sido acertada entre o governo sírio e os comandos rebeldes da região, com intermediação da Rússia, na noite de segunda-feira, mas a retomada dos bombardeios não demorou, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, organização não governamental pró-rebelde com sede em Londres. O fracasso da trégua foi acompanhado de outro: o das discussões no Conselho de Segurança da ONU. Convocada pela França, a reunião realizada na madrugada de ontem não resultou em nenhum avanço político.

A incapacidade dos principais países do Ocidente de intervir no conflito causou reclamação do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Em um pronunciamento na televisão turca, o chefe de Estado, que enviou tropas ao território sírio, convocou a ONU a agir. “Nações Unidas, onde estão vocês?”, questionou. No mesmo pronunciamento, Erdogan informou que negociava ao telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. 

O objetivo das discussões diplomáticas, segundo o presidente turco, seria retomar rapidamente a retirada dos civis e dos rebeldes armados. “A situação é muito frágil e complicada”, reconheceu Erdogan, referindo-se à abertura do corredor humanitário. “Estamos prontos para acolher os que virão à Turquia”, afirmou.

O cessar-fogo que vem sendo negociado prevê a saída de entre 2 mil e 10 mil pessoas que estão sitiadas no distrito leste de Alepo. Esses sírios seriam autorizados a deixar o cerco em ônibus para a província vizinha de Idlib. 

Rebeldes também poderiam deixar a cidade, mesmo portando armamento leve, como pistolas e fuzis. Os nomes dos removidos seriam listados pelas autoridades do regime.

Drama. O impasse político faz com que milhares de civis sigam sofrendo em meio ao conflito. Nesta quarta-feira, vídeos de moradores continuaram a denunciar nas redes sociais a armadilha na qual a população civil acabou envolvida. “Alepo tornou-se uma cidade fantasma, a cidade da morte”, afirmou Allah Alali, motorista de ambulância da organização Syria Charity, que fornece ajuda humanitária e médica. “Se nada for feito, se a comunidade internacional não se mobilizar, vamos enfrentar um massacre. Nós assistimos a uma crise humana contra os civis, e será um extermínio.”

Em outro vídeo, Salah al-Ashkar, ativista e morador de Alepo, pediu à comunidade internacional que se mobilize para evitar a prisão, a tortura ou a morte de habitantes da cidade. “A situação é muito ruim. As crianças têm muito medo, as mulheres temem ser estupradas”, conta. “Todos os moradores da cidade de Alepo contam com vocês para pressionar seus respectivos governos a fim de protegê-los do governo.” 

Em Paris, o presidente da França, François Hollande, pediu às partes envolvidas no conflito que concordem com a retirada das pessoas de Alepo sob o controle de observadores internacionais e de ONGs, uma solicitação também feita pelos EUA – e recusada – no Conselho de Segurança da ONU.

Impotência. Os apelos da França, do Reino Unido e da Alemanha, entretanto, têm poucas chances de serem ouvidos, pois as potências europeias acabaram distantes das discussões diplomáticas, enquanto a Rússia está em posição de força até mesmo frente aos EUA. Segundo o chanceler russo, Serguei Lavrov, a resistência dos rebeldes em Alepo não deve perdurar mais que “dois ou três dias”, o que colocaria fim ao conflito. A Rússia e o governo sírio consideram a região sob seu controle.

Se a previsão estiver correta, a maior cidade do país terá retornado às mãos do regime de Bashar Assad três anos e meio após o levante na metrópole. Com a perspectiva de vitória do regime na guerra, aliados de Assad festejaram. Ontem, Hassan Rouhani, presidente do Irã – país que financia o grupo xiita Hezbollah, que participou do conflito –, felicitou seu aliado regional pela “grande vitória do povo sírio contra os terroristas e aqueles que os apoiam”. 

Alto conselheiro do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o general Yahya Safavi foi ainda mais longe e saudou a “liberação” da cidade, algo que, segundo ele, coloca Teerã como “a primeira potência da região”. 

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