Anja Niedringhaus/AP
Anja Niedringhaus/AP

Acordo deve dar à Otan comando militar de intervenção contra Kadafi

Reino Unido e EUA atacam proposta francesa de criar 'comitê político', que guiará ações da aliança

, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

WASHINGTON - Um acordo para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) assuma o comando da operação militar na Líbia guiada por um comitê formado por chanceleres do Ocidente e de países árabes deve entrar em vigor nos próximos dias. Para participar da ação, a Otan precisa da aprovação de 28 de seus países-membros, entre eles a Turquia, que insiste em uma operação militar mais restrita e garantias de que não haverá uma ocupação na Líbia.

 

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Mas, após um movimentado dia de diplomacia, que incluiu telefonemas do presidente Barack Obama aos líderes francês, britânico e turco, um amplo acordo foi acertado para que a Otan obtivesse um importante envolvimento na operação.

O acordo resolverá dois problemas: dará aos EUA - que estão comandando a intervenção militar na Líbia para evitar que o regime de Muamar Kadafi massacre a população, mas estão com pressa de passar o controle para a frente - uma organização para entregar o comando. E ele também dará uma cobertura política à Otan, que, segundo alguns, não é bem vista pelo mundo muçulmano por causa de sua participação na guerra no Afeganistão.

"Quando essa transição ocorrer não serão nossos aviões que manterão a zona de exclusão aérea. Não serão nossos navios que necessariamente controlarão o embargo de armas. Isso é exatamente o que as outras nações farão", disse Obama em uma entrevista coletiva em El Salvador.

Paris mascara com a manobra o papel da Otan no comando efetivo das operações, como pediam americanos - que sofrem com o desgaste político e o ônus econômico de liderar duas guerras no exterior - e britânicos.

Na segunda-feira, divergências entre os principais membros da coalizão aprofundaram-se em Bruxelas, durante a reunião dos chanceleres da União Europeia. Pela manhã, Obama pressionava por rapidez na transferência do comando, "Espero que dentro de alguns dias nós tenhamos clareza e um acordo entre aqueles que participam do processo", declarou.

A polêmica sobre o comando estendia-se até a tarde de ontem, quando a fórmula do comitê político foi elaborada. "Levei a proposta a nossos colegas britânicos, que estão de acordo com a criação de uma instância de coordenação política da operação, reunindo os chanceleres dos países interventores e os da Liga Árabe", anunciou o chanceler francês Alain Juppé. "A partir dessa coordenação política, utilizaremos a capacidade de planejamento e intervenção da Otan."

A primeira reunião do comando político, cuja data ainda não foi definida, será em Bruxelas, Londres ou Paris, afirmou Juppé. Além de garantir o apoio árabe para os bombardeios, a ideia do comitê é driblar a resistência da Alemanha e da Turquia - dois membros da Otan.

Ontem, o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e Juppé mencionaram pela primeira vez a necessidade de encerrar os bombardeios nos próximos dias. "As ações militares na Líbia serão fortemente reduzidas em alguns dias", antecipou o americano. Já em Londres, o chanceler William Hague se recusou a estipular um prazo para o fim da intervenção militar. "Consideramos que estamos na primeira fase (da ofensiva)", disse. "Não acho que possamos fixar uma data final sobre isso."

Pela manhã, o ministro das Forças Armadas, Nick Harvey, afirmara à rede BBC que a possibilidade de enviar uma força terrestre à Líbia não estava descartada - um cenário que tem sido sistematicamente afastado por Washington e Paris. Segundo Harvey, a força não seria de ocupação, nem teria "escala significativa", mas atuaria num "papel defensivo, para proteger os civis".

DIFERENÇAS

Comando - EUA insistiram para que França assumisse; Paris receia que a Otan afaste os países árabes

Estratégia - Grã-Bretanha fala em intervenção terrestre; EUA e França rejeitam

Objetivo - Não está claro quanto ao futuro de Kadafi

 

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