Acordo entre palestinos busca por fim a impasse na AP

O acordo alcançado nesta terça-feira pelos grupos palestinos rivais Hamas e Fatah põe fim a um impasse dentro da Autoridade Palestina (AP) que já dura meses, mas deve passar ao largo das pressões internacionais para que o Hamas reconheça a existência de Israel. Desde que o Hamas assumiu o governo da AP, as tensões entre as duas facções ganharam força. Baseado em um documento escrito por líderes militantes detidos em prisões israelenses, o acordo prevê a criação de um Estado palestino controlado por um governo de coalizão nos territórios ocupados por Israel em 1967 (Faixa de Gaza e Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental). Na prática, isso significa o reconhecimento da fronteira de 1967, ou seja, a aceitação do Estado judeu, cuja destruição o Hamas prega em sua carta de fundação. Inicialmente, a proposta vinha sendo interpretada como uma solução de "dois estados" em que uma das prerrogativas seria o reconhecimento implícito do Estado de Israel. Mas, ao julgar pelas declarações de líderes do Hamas, não é assim que a facção vê o acordo. Segundo o ministro palestino Abdul Rahman Zidan, o documento não reconhece em nenhum momento Israel. "Não há acordo entre os palestinos em relação a este ponto específico. Você não encontrará no documento uma única palavra que indique o reconhecimento de Israel. Ninguém concordou com isto. Isto não esta estava sobre a mesa e não estava no diálogo", disse.Em geral, os dirigentes do Hamas consideram a existência de Israel um fato concreto, o que não significa que vejam legitimidade nesse fato. Em entrevista ao jornal americano The New York Times, o porta-voz do Hamas Mushir al-Masri resumiu o ponto de vista da maioria dos membros do grupo sobre o assunto: "Nosso problema é a legitimidade da existência (de Israel), não o fato em si. A existência deles é legitima ou não? Este é a nossa indagação. Eles são tangíveis, eles existem, e nós reconhecemos esse fato. Mas não concordamos que sejam legítimos"Governo de unidadeAinda segundo o NYT, fontes próxima ao presidente da AP e líder da Fatah, Mahmoud Abbas, afirmam que a importância do acordo estará na criação de um futuro governo de unidade entre Fatah e Hamas. Para o presidente da AP - o principal defensor do acordo -, o plano servirá para cancelar as sanções econômicas contra o governo palestino liderado pelo Hamas e pavimentará o caminho para a reabertura das negociações de paz com Israel.Por isso, os negociadores da Fatah insistem em dizer que o documento deve ser visto como uma concessão do Hamas, pois a criação de um Estado palestino nas fronteiras pré-1967 implica automaticamente no reconhecimento de Israel.A conclusão do acordo acontece em meio às pressões para que militantes palestinos libertem um soldado israelense capturado no último domingo. Membros da Fatah próximos ao presidente da AP, no entanto, disseram que o documento não está completo e que Abbas pretende revê-lo antes da assinatura. Segundo essas fontes, a eminente invasão de forças israelense à Faixa de Gaza em represália à captura de Gilad Shalit atrapalha a conclusão do acordo.Além da criação de um governo de unidade nacional e da proposta de um Estado palestino nas fronteiras pré-1967, o plano defende "o direito à resistência do povo palestino", o que inclui formas de terrorismo como atentados suicidas e ações políticas como a resistência popular contra a "ocupação".

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