Mohamad Torokman/Reuters
Mohamad Torokman/Reuters

‘Acordo Israel-Emirados sinaliza posição melhor para limitar a expansão iraniana’, diz pesquisador

Para Brandon Friedman, professor da Universidade de Tel Aviv, acordo já tem peso histórico e beneficia os dois países, mas não resolve todos os problemas

Entrevista com

Brandon Friedman, diretor de pesquisa do Centro Moshe Dayan para estudos sobre Oriente Médio e África

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2020 | 14h00

O acordo diplomático entre Israel e Emirados Árabes Unidos (EAU) é um desdobramento histórico, que tem peso estratégico na política do Oriente Médio e pode significar uma abertura do Estado Judeu para outros países árabes. Essa é a leitura de cenário feita pelo professor da Universidade de Tel Aviv, Brandon Friedman.

Em entrevista ao Estadão, o diretor de pesquisa do Centro Moshe Dayan para Estudos sobre Oriente Médio e África afirmou que a aproximação dividiu os países integrantes da Liga Árabe, fazendo prevalecer interesses individuais dos dois países - o que, no caso dos EAU, é o firmamento de uma posição estratégica mais confortável para se opor ao avanço da influência do Irã e da Turquia na região.

“Eles [Emirados Árabes] estão procurando fortalecer seus laços com os EUA, melhorar a cooperação estratégica com Israel e impedir a anexação israelense da Cisjordânia. Os Emirados também estão em desacordo com a Turquia sobre a questão da Líbia e continuam preocupados com os programas nuclear e de mísseis iranianos. Laços mais fortes com os Estados Unidos e Israel o ajudam a enfrentar os dois desafios”, explica Friedman.

Apesar de ser apenas o terceiro acordo diplomático árabe-israelense desde a declaração de independência de Israel em 1948 - o Egito assinou um em 1979 e a Jordânia em 1994 - o professor explica que a resolução não põe fim a outras questões importantes, como a relação com os palestinos e as crises política, econômica e de saúde que motivam protestos contra a classe política.

Confira a entrevista na íntegra:

Quais foram suas primeiras impressões sobre o acordo entre Israel e Emirados Árabes? O que podemos esperar dele?

É um desdobramento histórico. Nós podemos esperar maiores aberturas comercial, incluindo o turismo entre os dois países, e estratégica, e um maior engajamento entre os países. Talvez possamos ver também outros países, como o Bahrein, seguindo o mesmo caminho.

Como o acordo foi notado na política interna de Israel? É uma unanimidade ou há grupos críticos ao diálogo com o país árabe?

Acredito que foi notado e reconhecido pela conquista que foi. Nesse ponto, é quase um consenso. Claro, grupos de esquerda apontam, corretamente, que este acordo não fará com que a questão palestina desapareça. Também é importante lembrar que Israel está no meio de uma crise econômica e de saúde pública e muitos vêem o acordo como uma distração das questões mais urgentes que afetam seu dia a dia. Os contínuos protestos contra os líderes políticos política confirmam isso.

Por outro lado, como os países árabes e outros grupos, como os palestinos, reagiram a esta aproximação? Houve protesto da Liga Árabe, por exemplo?

Líderes palestinos em Gaza e a Autoridade Palestina obviamente se opuseram ao acordo, entendendo como uma traição. Mas eu acredito que os palestinos estão se sentindo isolados. Egito e Jordânia reagiram positivamente, vendo o acordo como um meio de evitar a anexação da Cisjordânia, e outros países do Golfo Pérsico, como Bahrein e Omã também se mostraram favoráveis. Isso significa que a Liga Árabe está dividida. Catar e Turquia (que não é árabe) se opuseram, e a Arábia Saudita, curiosamente, permanece em silêncio.

O fato dos Emirados Árabes serem um país mais aberto ao ocidente é um ponto relevante para o desenvolvimento desse diálogo com Israel?

Acho que os Emirados Árabes Unidos estão buscando o que consideram ser de seu interesse. Eles estavam procurando fortalecer seus laços com os EUA, melhorar a cooperação estratégica com Israel e impedir a anexação israelense da Cisjordânia. Os Emirados também estão em desacordo com a Turquia sobre a questão da Líbia e continuam preocupados com os programas nuclear e de mísseis iranianos. Laços mais fortes com os Estados Unidos e Israel o ajudam a enfrentar os dois desafios.

Como o acordo está relacionado com a estratégia de países do Golfo de sufocar o Irã no mercado de petróleo?

A estratégia de sufocar as exportações de petróleo do Irã é americana. Alguns dos países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein, se sentem ameaçados pela postura revisionista do Irã na região, mas outros não, como Kuwait, Omã e Qatar. Os ataques iranianos a petroleiros no Golfo, no verão de 2019, e o ataque às refinarias sauditas em Abqaiq e Khurais, em setembro de 2019, aumentaram o medo por parte dos sauditas e dos Emirados do Irã. Os dois países não querem que a influência iraniana se estenda além de suas fronteiras.

O Irã é relevante para o desenvolvimento dessa aproximação?

Sim, embora os Emirados Árabes Unidos e o Irã tenham conseguido alcançar uma distensão nos últimos 6 a 8 meses, o acordo dos EAU com Israel sinaliza uma posição melhor para limitar a expansão iraniana, se necessário.

O acordo pode ser entendido como o início de uma mudança nas relações entre Israel e o mundo árabe?

É cedo para afirmar isso, mas, talvez...

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