Acordo nuclear com Irã é a melhor opção

Alternativa militar levaria os EUA à guerra com Teerã para destruir suas usinas atômicas

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2015 | 02h00

Quando se posicionam sobre o acordo nuclear com o Irã, as pessoas se concentram corretamente em seus detalhes. Mas para imaginar se um acordo que limita e inspeciona o programa nuclear do Irã é aceitável é preciso considerar seriamente as alternativas a ele - e só há, de fato, duas.

A primeira é uma volta às sanções. Vamos dizer que o Congresso dos Estados Unidos rejeite o acordo final alcançado por todos em junho. O que vem em seguida? O regime de sanções atuais contra o Irã é quase sem precedente no sentido de que todas as maiores nações do mundo e os vizinhos do Irã o apoiam. Em geral, sanções se desgastam com o tempo.

Se outros países acreditarem que o Irã fez uma oferta razoável que os EUA rejeitaram, eles provavelmente não continuarão a apoiar um regime rígido de sanções. A maioria dos estudos confirma que foi o aspecto multilateral das sanções contra o Irã que as tornou eficazes.

Há países ávidos para comprar petróleo do Irã, que tende a vender com desconto. O principal player aqui é provavelmente Pequim. Quando o Ocidente passou a segregar o Irã, o país aprofundou seus laços econômicos com a China. Um estudo da Rand de 2012 observa que, "nos últimos anos, a China se tornou a maior consumidora de petróleo e maior parceira econômica do Irã". A China pode ver o isolamento do Irã pelo Ocidente como uma oportunidade para construir um relacionamento especial com ele e desenvolver a vasta economia energética desse país.

Se as sanções, no entanto, puderem ser mantidas, o Irã estará em dificuldade. Os preços do petróleo caíram pela metade e o Irã está sangrando recursos na Síria e no Iraque - e no Iêmen, embora consideravelmente menos. O Irã é um país orgulhoso e nacionalista.

Os iranianos suportaram desafios no passado - durante a guerra Irã-Iraque, aguentaram oito anos de um conflito brutal, ataques com armas químicas e meio milhão de mortes -, mas a pressão será real.

Sanções contínuas interromperiam o programa nuclear? Isso é altamente improvável. O Irã expandiu seu programa nuclear, apesar das sanções, nas duas últimas décadas. Em 2003, o país possuía menos de 200 centrífugas. Atualmente, ele tem 19 mil.

As restrições serão mais duras - se persistirem -, mas o establishment nuclear do Irã também é muito maior. É preciso considerar que Teerã começou a manifestar interesse ativo num programa nuclear já nos anos 50. Ele possui hoje milhares de cientistas e técnicos nucleares trabalhando na área.

Isso aponta para a segunda opção: um ataque militar. Algumas pessoas falam de um ataque ao Irã como os de Israel contra um reator iraquiano em 1981 e uma instalação síria em 2007. Mas aquelas eram instalações únicas. O Irã, ao contrário, tem uma vasta indústria nuclear, compreendendo muitas instalações espalhadas por todo o país, algumas próximas de centros populacionais, outras em terreno montanhoso. Os Estados Unidos teriam efetivamente de ir à guerra com o Irã, destruir suas defesas aéreas e depois atacar suas instalações com dezenas - talvez centenas - de incursões aéreas. Os bombardeios seriam equipados com armas altamente explosivas, demolindo edifícios, reatores e laboratórios, mas produzindo também danos colaterais consideráveis.

Qual seria o efeito de semelhante ataque? Quando um país é bombardeado por estrangeiros, seu povo tende a cerrar fileiras com o regime. A República Islâmica provavelmente ganharia apoio doméstico. Ela também responderia de várias maneiras por meio de seus aliados no Afeganistão, no Iraque, no Líbano e em outros lugares. Os ataques poderiam ser dirigidos contra tropas americanas ou de aliados.

Um ataque também significaria o esfacelamento da coalizão internacional contra o Irã. A Rússia, a China e muitos outros países o condenariam. O Irã seria visto como vítima de uma invasão não provocada. As sanções desmoronariam. Seu programa nuclear seria devastado, mas o Irã começaria a reconstruí-lo. Mesmo sob o atual regime de sanções, o Irã recebe dezenas de bilhões de dólares em receitas do petróleo, mais que o suficiente para reconstruir suas instalações.

Finalmente, uma vez atacado, Teerã invocaria a necessidade de uma capacidade de dissuasão contra ataques futuros e trabalharia diretamente e rapidamente, não em um programa nuclear, mas numa arma nuclear.

Em seu artigo em defesa de uma guerra com o Irã, o ex-embaixador americano na ONU, John Bolton, argumenta que ataques militares "deveriam ser combinados com um vigoroso apoio americano à oposição do Irã, voltada para uma mudança de regime em Teerã".

Mas bombardear e depois ameaçar a existência da República Islâmica provavelmente produziria o efeito oposto - um governo fortalecido em casa com um motivo claro para adquirir meios de dissuasão nuclear. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESCRITOR E JORNALISTA

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