Acordo nuclear corre perigo

'Linhas vermelhas' anunciadas pelo aiatolá Khamenei podem levar conversações ao fracasso

CAROL, MORELLO, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2015 | 02h03

Poucos dias antes de o secretário de Estado americano, John Kerry, viajar a Viena para participar das conversas sobre o programa nuclear iraniano, o líder supremo do Irã estabeleceu o que considera ser "importantes linhas vermelhas" - e qualquer uma delas pode impedir um acordo final.

Em discurso na noite de terça-feira, o aiatolá Ali Khamenei delineou diversas demandas, como a suspensão das sanções econômicas tão logo seja firmado um acordo e antes de o Irã desmantelar parte de sua infraestrutura nuclear. O aiatolá rejeitou um congelamento da pesquisa e desenvolvimento no campo nuclear, inspeções das áreas militares e restrições que durem mais de dez anos.

Os EUA lideram o grupo de negociadores que abrange os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, Rússia, França e Grã-Bretanha), mais a Alemanha. Apesar da hostilidade entre os EUA e o Irã, o diálogo direto entre os dois países constitui a parte mais importante das negociações.

Mas as limitações estabelecidas por Khamenei podem debilitar a capacidade dos negociadores iranianos de fazer concessões, com a aproximação da data fixada para um acordo final, que vencerá na segunda-feira. Essas limitações também contradizem a posição dos EUA no esboço de acordo de abril e os negociadores americanos disseram que não se afastarão dos seus termos.

Khamenei reiterou que todas as sanções bancárias, financeiras e econômicas devem ser suspensas no mesmo dia em que o acordo for assinado. E não apenas as impostas pela ONU, mas também as decididas pelo Congresso americano.

De acordo com o governo Obama, as sanções serão eliminadas gradativamente, mas somente depois de os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) atestarem que foi cumprida a exigência de o Irã desmontar as centrífugas usadas para enriquecer urânio, reduzir seus estoques do material e transformar suas usinas de enriquecimento em laboratórios. O urânio enriquecido é material que pode ser utilizado como combustível para usinas nucleares e, em concentrações muito mais altas, como material físsil para armas nucleares.

O Irã insiste que seu programa nuclear tem apenas fins pacíficos, como produção de energia e isótopos médicos, e o país não tem intenção de construir armas nucleares que, segundo Khamenei, são proibidas pelo Islã. Mas muitos observadores duvidam das alegações iranianas.

Khamenei também atacou a AIEA, cujo trabalho deve corroborar qualquer acordo. "Como a AIEA demonstrou diversas vezes que não trabalha de modo independente, nem é imparcial, estamos pessimistas quanto a ela", declarou Khamenei no Twitter.

Alguns observadores creem que as palavras do líder iraniano são uma última pressão numa negociação difícil. "É improvável que Khamenei tenha permitido a seus negociadores avançar tanto para no último momento sabotar o acordo", disse Karim Sadjadpour, analista especializado no Irã no instituto Carnegie Endowment for International Peace. "Ele não quer ser responsabilizado se o diálogo fracassar. E parece muito confiante de que o outro lado não quer um 'não' como resposta. É natural tentar extrair mais concessões."

As conversas entre Irã e as seis potências mundiais vêm se realizando há mais de uma década, mas aceleraram há um ano e meio, após a eleição do presidente Hassan Rohani, que prometeu libertar o Irã do peso das sanções. As negociações têm por fim aliviar as sanções se o Irã restringir seu programa nuclear. No Irã, a ala radical se opõe a qualquer acordo com os EUA ou que comprometa um programa nuclear símbolo do orgulho nacional.

Kerry participará das conversas no fim de semana pela primeira vez desde que quebrou a perna num acidente de bicicleta no dia 31. Mas antes se reunirá com o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Genebra.

Embora os negociadores americanos insistam que o objetivo é firmar um acordo final até segunda-feira, o Irã e vários países europeus que participam das negociações têm insistido numa prorrogação do prazo. Em termos práticos, o governo Obama gostaria de apresentar o acordo final ao Congresso em 10 de julho. Com base em lei sancionada em maio, o Congresso terá 30 dias para examinar o acordo se apresentado em 10 de julho. Após essa data, o tempo para exame pelo Congresso será de 60 dias. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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