Acordo político no Iraque já dá sinais de fragilidade

Parlamentares escolheram premiê em sessão tensa na quinta-feira sob acusações de quebra de acordo

Agência Estado

12 de novembro de 2010 | 11h15

 

BAGDÁ - O acordo para a divisão de poder no Iraque, que resultou na reeleição do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, mostrou seus primeiros sinais de fragilidade nesta sexta-feira, 12. O Parlamento terminou em um clima de discórdia a sessão para empossar al-Maliki, na noite anterior, e alguns políticos alegam que o pacto foi rompido horas após ter sido fechado.

 

A disputa levou um grupo de 60 parlamentares de um bloco apoiado pelos sunitas a abandonar a sede do Legislativo, em uma mostra da fragilidade do acordo. A intenção do pacto é finalmente acabar com o impasse político no país, que durou oito meses desde que as eleições gerais terminaram sem um vencedor claro.

 

Como parte do acordo, fechado após três dias de intensas negociações, o presidente Jalal Talabani, reeleito pelos parlamentares, nomeou al-Maliki como primeiro-ministro na noite de ontem. Porém esse passo foi ofuscado por uma disputa que levou os enfurecidos membros do bloco Iraqiya a abandonar a sede do Conselho dos Representantes, a Câmara dos Deputados local.

 

O apoio do bloco Iraqiya, que ganhou por pouco as eleições de 7 de março e ficou com a maioria das cadeiras representando áreas sunitas, é visto como vital para evitar a piora da violência no país. A minoria árabe sunita, que dominava a política no regime de Saddam Hussein, foi um dos pilares da insurgência contra os Estados Unidos após a invasão em 2003.

 

"Na noite passada, ficou claro, houve muitos desentendimentos", disse hoje o parlamentar independente curdo Mahmud Othman. "A noite passada mostrou que o acordo é débil - talvez por ele ter sido assinado a portas fechadas, e quando foi revelado, um lado não o apoiou. Se isso significar que o Iraqiya não participará no governo, criará problemas."

 

Negociações

A sessão parlamentar da noite de ontem foi apenas a segunda desde as eleições e havia começado em um clima otimista, com al-Maliki sentado ao lado do líder do bloco Iraqiya, ex-premiê do Iraque. Mas pouco após a eleição de Osama al-Nujaifi, um sunita membro do Iraqiya, como presidente da Casa, começaram as discussões, com o bloco Iraqiya reclamando que o acordo para a divisão do poder não havia sido honrado.

 

Especificamente, o bloco pedia que três de suas lideranças, impedidas de assumir cargos por seus supostos laços com o Partido Baath, do ex-ditador Saddam, fossem reempossadas antes da votação para o presidente do Legislativo. Quando as exigências não foram cumpridas, cerca de 60 parlamentares deixaram o Parlamento. Após alguma confusão, os deputados restantes votaram para reeleger Talabani. Al-Maliki agora tem 30 dias para formar seu gabinete. A próxima sessão parlamentar está marcada para amanhã.

 

"Nós boicotamos a sessão pois mostramos boas intenções com os outros, mas eles nos apunhalaram pelas costas", disse Saleh al-Mutlak, um dos três integrantes do bloco Iraqiya que querem seus cargos de volta. "Nós não vamos voltar sem garantias internacionais."

O acordo estipulava que um sunita ficasse com a presidência do Parlamento e Talabani e al-Maliki manteriam seus cargos. Também estabeleceu um órgão para monitorar a segurança nacional, em uma medida para agradar o ex-premiê Allawi, impedido de chegar ao cargo de primeiro-ministro mesmo que seu bloco tenha vencido por pequena margem a disputa de março nas urnas. Allawi já acusou várias vezes al-Maliki de monopolizar as questões de segurança em seu primeiro mandato.

 

O bloco Iraqiya condiciona sua participação a quatro pontos: uma lei formando o órgão para monitorar a segurança, um comitê para examinar casos de presos políticos, uma norma para determinar como será a divisão do poder e a anulação da proibição dos três parlamentares do bloco de assumirem seus postos.

 

EUA

 

O presidente americano, Barack Obama, qualificou o acordo político como um "marco" na história do Iraque. Falando em Seul, Obama disse que o governo será "representativo, inclusivo e reflete o desejo do povo iraquiano". Segundo ele, Washington vinha fazendo uma campanha por "um governo de base ampla". Os EUA mantêm menos de 50 mil soldados no Iraque. O país deve retirar todas suas tropas do território iraquiano até o fim de 2011. As informações são da Dow Jones.

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