'Acordos com a Rússia não valem nem o papel'

Representante da extrema direita no governo de Kiev defende intervenção da UE no avanço de Moscou

KIEV, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2014 | 02h03

A Europa precisa "acordar" e entender que a Rússia continuará a promover invasões no leste da Europa. Quem faz o alerta é o vice-primeiro-ministro da Ucrânia, Oleksandr Sytch. Ao Estado, o político não esconde sua frustração com o cessar-fogo e afirma que o acordo assinado com Moscou "não vale nem o papel em que foi assinado". A seguir, trechos da entrevista.

Qual a sua opinião sobre os ataques que estão ocorrendo, apesar do cessar-fogo?

Os acordos com a Rússia não valem nem o papel onde estão escritos. Apesar do cessar-fogo, há tiros e ataques todos os dias. Os terroristas querem o controle do aeroporto para usá-lo como base e garantir o fornecimento de armas.

Mas o sr. acredita que o acordo de cessar-fogo está ameaçado?

Há 23 anos vivemos sob a ameaça de Moscou e nada mudou. Podemos negociar com um grupo ou outro, mas sabemos que Putin está por trás de todos e usa os métodos mais cínicos para avançar.

O que pode ocorrer se o cessar-fogo não foi mantido?

O leste da Ucrânia é a plataforma para Moscou continuar a invadir. Os russos não pararão ali. A Europa não pode ficar parada. Esse fogo precisa ser abafado antes de ganhar proporções que saiam do controle. Os países bálticos e a Polônia serão os próximos. Putin vai parar onde for parado, não onde ele quiser.

O que a União Europeia pode fazer?

A UE precisa avaliar se existem soldados russos, armas russas e se nossa fronteira foi restaurada. Não escolhemos vizinhos. A Rússia é um problema para nos há séculos. Ninguém esperava que essa guerra ocorresse. Nem a sociedade, nem os militares e nem as autoridades. Sempre dissemos que poderíamos ver a desintegração do império soviético sem guerra. Mas estávamos errados. Tínhamos de lidar com isso tudo nos anos 90.

Por que a Ucrânia é tão importante para Moscou?

A Ucrânia é a fundação do império soviético. Existem duas razões para a agressão. A primeira é mostrar o poder geopolítico de Moscou. A segunda é que a Rússia necessita da Ucrânia para manter sua etnia. A Rússia precisa da Ucrânia para não ser um país quase islâmico.

A imprensa russa faz uma avaliação muito diferente da atual guerra. Como os sr. lida com isso?

Vai ser muito difícil vencer a guerra de informação. Temos um problema doméstico também que é a presença russa. Hoje, 98% dos programas de TV são feitos na Rússia, 90% das músicas que escutamos são russas, 80% dos livros são de autores russos. Muitos deles destroem a dignidade dos ucranianos. Nenhuma democracia permitiria que esses livros que afetam nossa imagem fossem distribuídos. Queremos uma proibição de produtos de livros que pedem a divisão da Ucrânia e trazem um discurso de ódio. Vamos analisar uma proposta de licenciamento de livros e criar uma comissão para analisar o conteúdo de obras para que possam ser vendidas. / J.C.

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