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Acordos em Madri

Provável aliança entre o PSOE e o Podemos deve incluir algum dos partidos independentistas

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2019 | 03h00

Como o Partido Popular temia que a hemorragia de eleitores para o partido nacionalista de ultradireita Vox lhe tirasse muitos votos, ele se inclinou ainda mais para a direita. Como resultado, nas eleições do dia 28, perdeu quase toda a centro-esquerda que o apoiava. Contabilizou o pior resultado da sua história, perdendo mais de 3,6 milhões de votos.

O Vox, que para a esquerda se tornou o lobo feroz dessa campanha eleitoral, com seus ataques à “direita covarde”, contribuiu de modo importante para a debacle do Partido Popular. Ingressa agora no Parlamento com 24 deputados, mas estará ali, provavelmente, apenas para que socialistas, independentistas e comunistas utilizem suas bravatas e imprecações de forte cunho nacionalista, como os alertas de um “fascismo” em perspectiva. 

Essa política justificará sem dúvida algumas medidas acertadas, mas também outras ruins e muitas péssimas. O fato é que a sociedade espanhola já é democrática o suficiente para não apoiar um movimento verdadeiramente fascista. Formado por famílias conservadoras aturdidas com a modernização da sociedade espanhola e grupos nostálgicos do franquismo, é provável que o Vox tenha atingido o porcentual máximo de aceitação nessas eleições: 10% dos votos. Mas os estragos causados são consideráveis. Entre eles, o fato de ter prestado um serviço involuntário, mas de grande importância, ao movimento independentista catalão, como veremos adiante.

O partido de Albert Rivera, Ciudadanos, no qual votei, é o outro grande vitorioso dessas eleições. Desesperados diante da contundente vitória do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e sua possível aliança com o Podemos, muitos empresários, dirigentes sociais e famílias da classe média e alta acham que uma aliança de socialistas e o Ciudadanos poderia livrar a Espanha de uma Frente Popular na qual ambos teriam de incluir também partidos bascos e catalães. Uma ilusão impossível.

O que o Ciudadanos e Rivera ganhariam com essa aliança? Nada, salvo um desprestígio considerável depois de seu líder ter descartado enfaticamente ao longo da campanha a possibilidade de um acordo de governo com o PSOE. É verdade que os políticos mudam de opinião com frequência, mas não quando se tem um plano de ação perfeitamente traçado e os resultados eleitorais mostram estar muito bem encaminhado nessa direção. Albert Rivera deseja liderar a oposição ao governo socialista e depois ser ele o governo. Por isso, atacou com tanta dureza o Partido Popular durante a campanha, buscando sobrepujá-lo, o que esteve a ponto de conseguir. Com essa política, Rivera angariou um considerável poder eleitoral e, conhecendo-o e tendo acompanhado toda sua carreira política, não acredito que em troca de alguns ministérios Rivera cometeria um suicídio político.

Em vez de sonhar com o impossível, o melhor é aceitar a realidade nua e crua. O que significa ser quase certo que o governo que comandará a Espanha nos próximos quatro anos terá como base um acordo entre socialistas e o Podemos que, juntos, não alcançarão a maioria parlamentar necessária para governar, e incluirão provavelmente um terceiro aliado, ou seja, os independentistas bascos e catalães.

O triunfo do PSOE, impecável do ponto de vista democrático, tem um aspecto muito importante. O socialismo atual não é a social-democracia de Felipe González. Está muito mais próximo do socialismo radical de José Luis Rodríguez Zapatero, o que permite prever importantes aumentos de impostos em razão de reformas sociais audazes, impossíveis de financiar, e talvez uma crise econômica e financeira no médio prazo. Embora Pablo Iglesias tenha se mostrado bastante moderado na campanha eleitoral, a ponto de dar aulas de boa educação e sobriedade a adversários, ele não renunciou à revolução social e sua aliança com o PSOE incluirá, certamente, aumentos de salários, exigindo que os empresários e as grandes fortunas os custeiem, o que, no curto ou longo prazo, deve retrair ou paralisar os investimentos. Por sorte, a Espanha está dentro da União Europeia, que pode atenuar, mas não eliminar (lembremo-nos da Grécia), os esbanjamentos socialistas.

Certamente, a política externa da Espanha mudará com o novo regime, no pior dos sentidos. Por exemplo, no apoio que vem prestando à democratização da ditadura venezuelana ou nas pressões internacionais para que o regime do comandante Daniel Ortega e sua mulher, na Nicarágua, pare com as perseguições e matanças, solte as centenas de presos políticos e convoque eleições livres com observadores internacionais monitorando a imparcialidade delas. Existe um antecedente mais que alarmante neste assunto: a conduta de Zapatero nas conversações de paz na República Dominicana e seus conselhos à oposição para aceitar participar de eleições que já estavam fraudadas de antemão para favorecer Nicolás Maduro.

Mas é especialmente na questão do movimento independentista catalão que pode ocorrer um drástico reajuste. Antes das eleições houve conversas entre o presidente Sánchez e o presidente da Generalitat, Joaquim Torra, em que, ao que parece, foram feitas concessões aos independentistas – como aceitar um “relator internacional” nas negociações, chegando-se a falar também do referendo, a exigência básica dos independentistas. O “direito de votar” existe na Constituição espanhola, mas este é um direito de todos os espanhóis se o assunto em votação é a secessão de um território da pátria comum, e de nenhum modo é um direito excludente dos habitantes do território disposto a se emancipar. Mas o dirigente do Partido Socialista Catalão (PSC), Miguel Iceta, associado ao PSOE, já declarou ser favorável a esse “referendo pactuado” (o adjetivo está ali apenas para tranquilizar os pobres de espírito) e Pablo Iglesias cansou de repetir que o “problema catalão” só se resolverá por meio do diálogo nessa “nação de nações” que é a Espanha. É óbvio que, se o governo espanhol reconhecer aos catalães o direito de decidir, com que argumentos negará esse direito aos bascos, galegos, valencianos e outros?

Nada disso ocorrerá obrigatoriamente, mas pode se verificar e, neste caso, temo que no longo prazo veríamos a desintegração da Espanha. Para que isso não ocorra é indispensável uma vigilância constante desse mesmo eleitorado que deu ao PSOE sua formidável vitória. A dissolução da velha Espanha não traria benefícios, mas prejuízos imensos, a todos os espanhóis sem exceção, a começar por aqueles obstinados em conseguir uma independência que, nos tempos atuais e face às obrigações que a Espanha tem para com a União Europeia, seria uma mera aparência, sobrecarregada de problemas monumentais. Ou seja, mais pobreza, carestia, dívidas e greves para aqueles que sonham com a soberania como uma panaceia milagrosa. / Tradução de Terezinha Martino 

* É prêmio Nobel de Literatura

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