Acordos fortalecem Evo Morales, dizem analistas bolivianos

Os novos contratos assinados pelas petroleiras estrangeiras para a nacionalização do setor de hidrocarbonetos devem fortalecer o presidente Evo Morales e ajudar a aumentar sua popularidade, em queda nos últimos meses, na avaliação de analistas bolivianos ouvidos pela BBC Brasil. ?Em princípio, ele fica muito fortalecido, porque conseguiu dois golpes em seguida: o contrato de gás com a Argentina e a assinatura de novos contratos com todas as petroleiras?, diz o cientista político Carlos Toranzo, do Instituto Latino-Americano de Pesquisas Sociais, em La Paz. Havia uma incerteza, na Bolívia, sobre se o governo seria capaz de convencer todas as empresas estrangeiras a renegociar seus contratos e a permanecer no país. Ainda na sexta-feira à noite, um dia antes do prazo final, o governo conseguiu a maior vitória: a francesa Total não só aceitou permanecer como anunciou quase US$ 2 bilhões de investimentos para os próximos anos.Toranzo diz que, embora os detalhes dos contratos ainda não sejam conhecidos, a percepção da opinião pública é de que eles são favoráveis à Bolívia. ?Com isso, Evo Morales ganha mais legitimidade, mais apoio popular?, acredita.A popularidade do presidente caiu muito nos últimos meses, num período em que houve muitas dúvidas sobre a negociação dos contratos e manifestações populares em outros setores, como agricultores e mineiros. De acordo com o instituto de pesquisas de opinião Apoyo, a aprovação ao governo caiu em setembro pelo quarto mês consecutivo e chegou a 52%. Em maio, a aprovação a Morales era de 80%.Neste domingo, a nacionalização era a manchete de todos os jornais bolivianos. ?Todas as petroleiras assinam e aceitam pagar 82% ao Estado?, escreveu o La Razón, um dos principais do país. ?Petroleiras assinam contratos e Evo promete segurança?, disse o La Prensa, o outro grande jornal de La Paz.O sociólogo Fernando Mayorga, da Universidade Mayor de San Simon, em Cochabamba, diz que além do fortalecimento de Morales com sua própria base de apoio, o sucesso da nacionalização dos hidrocarbonetos rompe com o mito das elites de que este governo seria incapaz de levar adiante o processo.?Partia-se do princípio de que o país não tem capacidade de negociar?, afirma. Ele acha que, ao contrário, Morales tem se mostrado um político habilidoso, combinando um discurso radical com ações mais moderadas.?Com o discurso radical, ele elimina a oposição de esquerda e com as decisões mais moderadas, ele elimina a oposição de direita?, afirma Mayorga.O desafio do presidente, diz ele, é aplicar a capacidade de negociação que ele demonstrou no caso das petroleiras na relação com a Assembléia Constituinte, que foi formada há três meses e até agora não conseguiu aprovar nenhuma lei.Ao contrário da nacionalização, que não tinha opositores em nenhum setor da sociedade, a Assembléia lida com assuntos que dividem o país, como a autonomia das províncias. As províncias da planície, a parte mais rica do país, como Santa Cruz de La Sierra e Tarija, querem mais autonomia política e administrativa em relação ao governo central, mas os moradores das outras províncias acham que eles querem se separar do resto do país.?Se ele for moderado na negociação da constituinte como foi na nacionalização do hidrocarbonetos, pode conseguir um acordo e ter um governo mais instável?, afirma Mayorga.Durante todo o processo de nacionalização, o governo tem jogado com o orgulho dos bolivianos, apresentando o processo como um resgate da dignidade do país. ?Evo não está inaugurando o nacionalismo. A Bolívia é um país nacionalista. Ele só está jogando com um sentimento que já existia?, diz Mayorga.

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