Acusação a Cristina chega ao Congresso

Oposição argentina formaliza no Legislativo denúncia de que Casa Rosada pressionou e tentou subornar deputados para aprovar lei

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Vozes da oposição argentina acusaram formalmente ontem integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner de tentar pressionar e subornar parlamentares para aprovar o orçamento federal.

A deputada Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, condenou o silêncio de seus colegas, que teriam conhecimento de detalhes sobre os casos subornos. "É a Lei da Omertà (código do silêncio da máfia siciliana)", lamentou. Elisa acusou o ministro do Planejamento, Julio De Vido, de estar por trás de pressões e propinas a deputados da oposição.

Realizadas durante a reunião da comissão parlamentar de assuntos constitucionais, as acusações também atingiram a deputada kirchnerista Patricia Fadel, segunda vice-presidente da Câmara. Patricia é considerada parte da tropa de choque de Cristina no Congresso, principal defensora de projetos controvertidos como o projeto de lei sobre a imprensa argentina.

A sessão terminou em tumulto no início da noite quando o deputado Carlos Kunkel, uma das principais figuras do kirchnerismo na Câmara, levou uma bofetada da presidente da comissão parlamentar constitucional, a deputada Graciela Camaño, peronista dissidente. Segundo a deputada, Kunkel havia ofendido seu marido, o líder sindical Luis Barrionuevo, suspeito de vários casos de corrupção.

A crise começou na semana passada, quando doze deputados da oposição ausentaram-se do plenário pouco antes da votação, favorecendo o governo. Outros quinze deputados teriam recebido propostas do governo para não barrar a lei orçamentária.

Cabaré. Deputados governistas presentes na reunião da comissão, quando a oposição formalizou as denúncias, negaram as acusações. Para a base kirchnerista, deputados tentam inviabilizar o governo de Cristina. A Casa Rosada nega qualquer manobra para pressionar os parlamentares, mas admite que ocasionalmente "negocia" com deputados. "Todos na política fazemos negociações e intercâmbio de opiniões", sustentou Cristina.

O governo pretendia ontem levar o projeto de lei do Orçamento Nacional novamente à Câmara em sessão especial. Mas a maioria dos partidos da oposição ausentou-se do plenário, impedindo o quórum necessário para aprovar a proposta. O governo devia reunir 129 cadeiras. Mas apenas 117 parlamentares estavam presentes. O deputado Agustín Rossi, aliado de Cristina, atacou: "Carrió quer transformar a Câmara em um cabaré onde ela é a madame." A estratégia do governo é culpar a oposição pelos entraves ao governo.

PARA LEMBRAR

Duas deputadas confirmaram tentativas de subornos do governo. Elsa Álvarez, da União Cívica Radical (UCR), de centro, disse que um integrante do alto escalão do governo telefonou-lhe insistentemente no celular, quando estava no plenário, para pedir que saísse, já que para o governo era "absolutamente necessária" a aprovação do orçamento. Cinthya Hotton, deputada do partido de direita Valores Para Meu País - denunciou "pressões e ofertas" do governo.

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