Senate Television via AP
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Acusação usa vídeo inédito para provar ação de Trump no ataque ao Capitólio

Democratas sustentam que ex-presidente tentou deslegitimar processo eleitoral durante meses com falsas alegações de fraude e instigou apoiadores a lutarem contra a certificação de Biden, sendo responsável pela invasão do Congresso

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 21h15

WASHINGTON - Deputados democratas usaram vídeos inéditos do circuito de segurança do Capitólio para sustentar a acusação contra Donald Trump no julgamento do impeachment do ex-presidente, realizado pelo Senado. As imagens mostram os próprios senadores que irão julgar a acusação contra Trump sendo retirados do plenário, no dia 6 de janeiro, quando o Congresso americano foi atacado. 

Em uma das cenas, o então vice-presidente, Mike Pence, é conduzido rapidamente por agentes do Serviço Secreto, junto de sua família, para fugir dos invasores. No andar debaixo, destacaram os democratas responsáveis pela acusação, apoiadores de Trump buscavam por Pence e pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi, com intuito de matá-los.

A acusação também sustentou, com apresentação de um documento, que a marcha do dia 6 de janeiro não estava autorizada a caminhar do local de discurso de Trump rumo ao Capitólio, mas a permissão foi concedida quando a equipe do ex-presidente se envolveu na organização do evento.

Os senadores assistiram em silêncio cenas de horror e pela primeira vez viram os registros internos de segurança. A acusação aposta na sensibilização dos parlamentares, que são ao mesmo tempo juízes e vítimas do ataque e foram durante toda a quarta-feira confrontados com as lembranças de um dia perturbador.  "Trump claramente renunciou ao seu papel de comandante-chefe e tornou-se o incitador-chefe", disse Jamie Raskin, o líder do grupo de deputados responsáveis pela acusação.

Entre as cenas apresentadas, há imagens do segurança Eugene Goodman, que distraiu a multidão para evitar que extremistas chegassem ao plenário, orientando o senador Mitt Romney a mudar de direção. No vídeo, o republicano corre para não se defrontar com os invasores. Em outra imagem, o atual líder da maioria no Senado, o democrata Chuck Schumer, corre junto aos seguranças de um lado para o outro de um corredor.

Na argumentação desta tarde, os deputados democratas responsáveis pela acusação usaram vídeos já conhecidos e também as imagens inéditas para montar a linha do tempo do dia da invasão e relacionar o ataque a declarações de Trump durante todo o processo eleitoral.

Os democratas relembraram as vezes em que Trump se recusou a se comprometer com a transição pacífica de poder, antes da eleição, com vídeos e imagens das frequentes postagens do ex-presidente no Twitter com falsas acusações de fraude eleitoral. A acusação sustenta que Trump construiu um discurso de deslegitimação do processo eleitoral durante meses e instigou seus apoiadores a lutarem contra a certificação de Joe Biden, no dia 6 de janeiro e foi responsável pela tentativa de ataque ao Capitólio e a Pence, que foi seu fiel aliado nos quatro anos de governo e concorreu na chapa com o ex-presidente.

No dia do ataque ao Capitólio, o vice-presidente tinha a missão de conduzir a sessão de certificação da eleição de Joe Biden no Congresso, na função de presidente do Senado. Trump, no entanto, continuava a clamar vitória na eleição presidencial e dizia que os democratas fraudaram o resultado para dar a vitória a Biden. Em discurso a seus apoiadores no dia 6, no qual pediu que a multidão lutasse por ele, Trump afirmou: "Se Pence fizer a coisa certa, nós vencemos". 

"Ele construiu essa multidão por muitos meses", disse o deputado Eric Swaldell, um dos gerentes da acusação. "Ele os fez acreditar que a vitória foi roubada e os incitou para que pudesse roubar a eleição para ele mesmo", disse o democrata. 

 Republicanos não pretendem condenar Trump, que pode se tornar inelegível se o impeachment prosperar. Os democratas precisam do voto de 17 dos 50 senadores republicanos para condenar Trump no Senado e aí então abrir a votação para torná-lo inelegível. Até agora, não há disposição entre senadores republicanos de votar contra o ex-presidente.

Pesquisa

Ainda que critiquem, publicamente e nos bastidores, as declarações de Trump de convocação de apoiadores a lutar por ele contra a eleição de Biden, os senadores avaliam que a base eleitoral se mantém fiel ao discurso e à influência do ex-presidente. Pesquisa realizada pelo site Vox em parceria com o Data for Progress entre 8 e 11 de janeiro mostrou que 72% dos eleitores republicanos questionam os resultados da eleição presidencial e 74% dizem que as alegações de fraude contribuem para esse sentimento. 

"Há uma linha do tempo muito clara, na qual dá pra sentir a raiva e a violência. A evidência é muito condenável. Eu não vejo como Donald Trump poderia ser reeleito para a presidência novamente", disse a senadora Lisa Murkowski, do Alaska, a jornalistas ao deixar a sessão nesta quarta-feira, um dos seis votos de republicanos que autorizou, no dia anterior, o julgamento de Trump.

Além das imagens dos próprios senadores, os democratas fizeram os senadores ouvirem áudios trocados por policiais no dia do ataque, no qual os agentes de segurança se mostram desesperados com a invasão. Imagens de policiais machucados e lutando para manter os parlamentares seguros foram exibidas várias vezes. Cerca de 140 policiais ficaram feridos no dia 6 de janeiro. Há casos de lesões cerebrais, na coluna e um agente que provavelmente perderá visão, segundo associação de policiais do capitólio.

O julgamento deve se estender durante o fim de semana. No sábado, a pedido da defesa de Trump, não haverá sessão, mas senadores podem retomar o julgamento no domingo. A expectativa de democratas e republicanos é encerrar o caso no início da próxima semana.

Nenhum dos dois partidos pretende prolongar o processo de impeachment, que tem resultado já esperado. Para os republicanos, o caso relembra uma sombra na história do partido, que foi o ataque ao Capitólio por extremistas que apoiavam Trump. Democratas, por sua vez, querem liberar a pauta do Congresso para discutir o pacote de socorro econômico de Joe Biden, uma prioridade do novo governo.

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