Kevin Lamarcque/Reuters
Kevin Lamarcque/Reuters

Acusações de Trump contra Obama têm como base narrativas duvidosas

Durante meses o 'Washington Post' tentou confirmar a informação de um mandato da Fisa relacionado à campanha de Trump, mas não conseguiu

Glenn Kessler / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2017 | 05h00

A explosiva acusação do presidente Donald Trump de que o ex-presidente Barack Obama grampeou seus telefones tem base em quê? Essa é a pergunta feita desde que Trump lançou tuítes na madrugada de sábado, uma vez que ele e sua equipe não apresentaram provas. 

O departamento de checagem do Washington Post pediu à Casa Branca que apresentasse evidências de uma alegação tão dramática. O jornal fez a solicitação no sábado e não obteve resposta. Ao pedir que a investigação no Congresso sobre uma aparente intromissão russa nas eleições também examinasse as alegações de Trump, o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, referiu-se a “informações sobre investigações politicamente motivadas”. 

Assessores da Casa Branca fizeram circular internamente um artigo do Breitbart intitulado “Mark Levin ao Congresso: Investiguem o ‘Golpe Silencioso’ de Obama contra Trump”. O Breitbart é uma organização noticiosa de direita dificilmente confiável como fonte de informação. Com frequência o material que divulga é reciclado e distorcido. Um porta-voz da Casa Branca, porém, disse que o governo estava se baseando em reportagens da “BBC, Heat Street, The New York Times e Fox News, entre outros”. Ele apresentou uma lista de cinco artigos. Examinemos as fontes do presidente. 

Comecemos com o artigo do Breitbart, que lista dois pontos-chave que aparentemente suportariam a acusação de Trump. Segundo o site, em dois momentos, o governo Obama fez um pedido à Corte de Controle de Informações Externas (Fisa, na sigla em inglês) para poder monitorar comunicações envolvendo Trump e seus conselheiros. Um em junho e outro em outubro. 

Esses pontos-chave, porém, não tem como base reportagens do Breitbart. Na verdade, a publicação cita uma reportagem que apareceu em Heat Street, outro website de direita. A publicação diz que duas fontes ligadas à comunidade de contraespionagem confirmaram ao Heat Street que o FBI solicitou, e obteve, um mandato da Fisa em outubro dando à contraespionagem permissão para investigar atividades de ‘americanos’ da campanha de Donald Trump com ligações com a Rússia.

Durante meses o Washington Post tentou confirmar a informação de um mandato da Fisa relacionado à campanha de Trump, mas não conseguiu. Presumivelmente, outros veículos de informação americanos fizeram o mesmo. Portanto, é preciso considerar essa acusação com ceticismo.

Ao que se sabe, apenas duas outras reportagens abordaram essa acusação à Fisa, ambas de veículos britânicos. Uma é da BBC, em janeiro, que a Casa Branca citou como fonte. Disse a BBC: 

“Advogados da Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça redigiram uma requisição, levada ao tribunal americano secreto que trabalha com informações e com a Fisa. Queriam permissão para interceptar registros eletrônicos de dois bancos russos. Sua primeira requisição, em junho, foi sumariamente rejeitada pelos juízes. Eles voltaram, então, com uma requisição mais enxuta, igualmente rejeitada. Finalmente, com um novo juiz, a autorização foi dada em 15 de outubro, três semanas antes da eleição.”

Nem Trump nem seus sócios são citados na autorização da Fisa, que só cobriria cidadãos ou entidades estrangeiras - nesse caso, bancos russos. Mas o alvo final da investigação seriam transferências de dinheiro da Rússia para os Estados Unidos, o que, se provado, seria crime grave.

 

A outra reportagem é de jornal The Guardian. O jornal informou que o FBI pediu um mandato da Fisa para monitorar quatro membros da equipe de Trump suspeitos de contatos irregulares com funcionários russos. Então, o que temos?

Apenas dois artigos, ambos com raízes britânicas, informaram que o mandato da Fisa foi dado em outubro para investigar possíveis atividades entre bancos russos e um servidor de computador na Trump Tower. Essa informação não foi confirmada por veículos de imprensa americanos. E mais: nenhum dos artigos diz que Obama pediu a ordem ou que ela resultou do grampo em linhas telefônicas de Trump. 

Além de tudo, os artigos não sustentam a acusação da Casa Branca de Trump de que se tratou de “investigações politicamente motivadas” ordenadas por Obama. E, embora o governo Trump cite cinco reportagens para justificar um pedido de investigação pelo Congresso, só duas delas são relevantes. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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